Amigos,
Boa tarde,
Recebi hoje a visita do Cel.PM Edilberto de Oliveira Melo que veio me presentear com sua nova obra, o livro: "Pro Brasilia". Fico muito contente em poder divulgar esse trabalho recente. Foi uma honra recebê-lo. Veterano da Polícia Militar de São Paulo, o Coronel é escritor de diversos livros sobre a instituição. A obra também foi entregue ao meu chefe de gabinete, Danilo Antão, e ao meu assessor José Fransicco Giannoni. Parabéns!
Este blog destina-se a manter contato com pessoas ligadas de um modo geral à história de nossa Pátria, de São Paulo e no sentido saudosista à minha querida terra natal, ao pé da Cuesta de Botucatu, a terra do petróleo, da ecologia e do Gigante que Dorme... essa minha terra chamou-se Samambaia, à partir da República Rio Bonito, e em 1921 mudou-se para Bofete, nome oriundo de um guarda-comida (buffet) dos antigos mascates que por lá passavam...
Boa leitura!
domingo, 19 de maio de 2013
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Saindo do Forno....
Nossa gloriosa Polícia Militar, que o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar plantou no sagrado chão de Piratininga, nos seus 178 anos de vida, sempre se norteou, heroicamente, para servir a São Paulo e ao Brasil, cumprindo aquela legenda sagrada que alicerça o Brasão do nosso Estado-PRÓ BRASILIA FIANT EXIMIA (Para o Brasil façam-se grandes coisas). É oportuno lembrar que os duzentos anos se aproximam.
É deveras esplêndida a contribuição paulista na segurança da nossa Terra, pois, em todos os momentos críticos da nacionalidade brasileira, nos distúrbios sociais ou políticos, revoltas, revoluções ou guerras, São Paulo esteve sempre presente, com a sua Bandeira das Treze Listras tremulando, altaneira e majestosa, protegendo o ideal do nosso povo, honrando os ditames de sua heráldica - DE DIA E DE NOITE OS PAULISTAS DEFENDEM O BRASIL EM TODAS AS DIREÇÕES MESMO COM O SACRIFÍCIO DA PRÓPRIA VIDA. É o paulista com o Brasil no seu Brasão, na sua Bandeira e no seu coração.
Já no alvorecer da nossa história, os guerreiros vicentinos, com um pequeno exército tupiniquim, repeliram o invasor espanhol, alertando a Corte Portuguesa do valor imenso da terra de Santa Cruz e do perigo de invasão de Nações Européias, que já namoravam a Terra dos Papagaios e do Pau Brasil.
O Termo da Vila de São Vicente de 1542, provocou uma ordem régia, já em 1548, na qual o Soberano de Portugal, preocupado com a segurança da nova Colônia, determinou às Capitanias Hereditárias, que todas elas tivessem peças de artilharia, pólvora necessária, arcabuzes, catapultas, lanças, espingardas e espadas.
Portugal já havia arregimentado suas Tropas, em Lisboa, equipando-as, armando-as e treinando-as, à moda dos exércitos europeus, que já tinham se despojado das armas, das técnicas e táticas medievais.
Toda essa estrutura Portugal transferiu ao Brasil, iniciando o ciclo das Tropas de 1.ª Linha, que recebiam soldo; de 2.ª Linha, Milícias ou Auxiliares; 3.ª Linha, as Ordenanças, estas constituindo as raízes das Polícias Militares dos estados brasileiros.
Os Regimentos ou Terços dessas Tropas de Linha lutaram, bravamente, no sul do nosso País, contra os castelhanos, pois as guerras freqüentes entre Portugal e Espanha refletiam na Colônia, só terminando quando a Cisplatina se tornou a Nação Uruguaia. Não nos esqueçamos de destacar a atuação das Companhias de Ordenanças, na Praça de Iguatemi – o Cemitério dos Paulistas – no sul de Mato Grosso, pois a Coroa temia a invasão dos paraguaios, atraídos pelo ouro das Minas Gerais.
As Tropas de Primeira Linha são o Exército Nacional de hoje e as Milícias e as Ordenanças foram extintas, pelo Padre Diogo Antonio Feijó, quando Ministro da Justiça da Regência Trina, em 1831, o qual, com a mesma pena criou a Guarda Nacional (a Milícia Cidadã que prestou grandes serviços à Nação, sendo desmobilizada em setembro de 1922) e os Permanentes da Corte, recomendando aos Presidentes das Províncias igual providência. Assim, pois, foi criada a Guarda Municipal Permanente em nossa Província, pelo então Coronel de Milícia Rafael Tobias de Aguiar. É o nome de batismo da nossa Corporação, a qual, no decorrer dos anos foi denominada Corpo Policial Permanente, Corpo Policial Provisório, Força Pública Estadual, Força Policial e Força Pública que, na fusão com a Guarda Civil em 1970, tomou a denominação de Polícia Militar, em cujo Brasão resplandecem 18 Estrelas, na bordadura do Escudo, representantes dos marcos históricos da Corporação.
No Brasão destaca-se, à direita, a figura do bandeirante Domingos Jorge Velho, o vencedor do Quilombo dos Palmares. Está na posição de sentido, com bacamarte e espada, representando a epopéia dos Homens de botas de sete léguas, que chutaram as linhas das Tordesilhas para as bandas do oceano pacífico, triplicando a extensão da América Portuguesa, o milagre Brasil, gigante pela própria natureza.
Reproduzimos na bibliografia as obras consultadas de consagrados autores, a maioria já falecidos, que merecem as nossas homenagens e nossas orações. As fotos , quase todas, foram extraídas do livro “Tropas Paulistas de Outrora” de J. Wasth Rodrigues.
É nosso pensamento ter este livro um caráter pedagógico, pois, os seus capítulos foram escritos, numa ordem cronológica, desde a invasão do espanhol Rui Moschera, passando pelas tropas de 1.ª Linha, pelas Ordenanças e Milícias até os fatos contemporâneos, destacando a atuação da Polícia Militar, sempre pronta a lutar, bravamente, como as tropas do passado pela segurança de São Paulo e do Brasil.
Estão, pois, expostas nesta obra os fatos da fibra castrense dos Paulistas, não restando dúvidas de que ajudamos, e muito, a consolidação da América Portuguesa, um quadro vivo, que explica o Brasil uno, territorial e sentimentalmente.
O AUTOR
Informações:
e-mail: losmaya@gmail.com
terça-feira, 9 de abril de 2013
Governador Mário Covas
Escrevemos há poucos sobre Jânio Quadros que, nos primeiros anos de seu governo (1957-59) ignorou a então Força Pública, cortando verba do seu orçamento, comprometendo até a saúde de nossos homens, escassez dos remédios no Hospital Militar, falta de médicos e tantos outros desatinos.
Mas o tempo foi passando e a atitude de Jânio Quadros foi se modificando. Ele sentiu a lealdade da tropa, sentiu o valor de seus oficiais e praças, os exemplos dignificantes dos homens de Tobias de Aguiar, mudando seu conceito e começando a admirar a nossa gente.
Presidente da República em 60, substituindo Juscelino Kubstchek, levou para Brasília uma vintena de oficiais nossos, comandados pelo inesquecível cel. Jayme dos Santos, que vitalizou o Depto. Nacional de Segurança Pública, criando, em boa hora a sua Escola de Polícia, formadora de delegados da Polícia Federal, nomeados no Brasil todo para o combate à nefasta corrupção que campeia em nossa pátria.
Com Mário Covas também aconteceu algo semelhante (Governador de 1995-99 e 99-2001). Contestador dos governos militares (Generais Castello Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo), teria sido preso pelo DOI-CODI, conduzido a Santos por uma patrulha nossa para o corretivo em um navio presídio. Sua ira não foi somente contra a PM, generalizando para as Forças Armadas da nação.
Com as Diretas, a política brasileira inverteu-se eles que eram perseguidos, porque conspiravam contra o regime tornaram-se os perseguidores e até os dias de hoje tentam, com a abertura dos arquivos do DEOPS, uma vingança que não tem sentido, reacendendo ideologias ultrapassadas, pois o que foi decretado pelo gal. João Figueiredo a anistia geral está sendo levada a um segundo plano.
Uma pergunta: essa comissão da verdade que foi nomeada para incriminar os responsáveis pelo terrorismo, levantará e estudará o arquivo referente ao vice Almirante Nelson Gomes Fernandes, morto no aeroporto de Guararapes, vítima de bombas endereçadas ao presidente Costa e Silva, quando este visitava Recife, em 1966?
E o cabo do exército nacional Mário Kosel Filho, morto na explosão quando sentinela do quartel general do segundo exercito, em 1968?
Também do nosso herói-mártir Alberto Mendes Junior assassinado com requintes de selvageria nas matas da região do Vale do Ribeira, em 1970?
E o delegado Dr. Otávio Gonçalves Moreira Junior da Polícia Civil de São Paulo, assassinado, em 73 por vários terroristas em Copacabana, numa traiçoeira perseguição.
Também a morte do cap. americano, com bolsa de estudo da USP, morto na frente de sua mulher e filhos?
E o crime da R. Piratininga, na Mooca, onde um guarda civil foi fuzilado por Lamarca?
Voltemos a Mário Covas, o tempo é o remédio para todos os males. Ele reconheceu o valor do nosso Hospital Militar e aprovou verbas a seu favor, nomeou médicos especialistas que então precisávamos, tornou nosso amigo e admirador. No livro Clarinadas da Tabatinguera, prestei-lhe uma homenagem, no fechamento de um artigo, quando do seu falecimento, em marco de 2001:
"Governador Mário Covas, esqueça os idos das reprimendas do DOI-COI. Onde estiver, sinta o calor dos nossos homens da Infantaria, da Cavalaria, do Grupamento Aéreo, do Pelotão de Honra Fúnebre e dos Cadetes, que carregaram seu esquife nos ombros, elevando-o para mais perto de Deus. Que Deus o proteja nos páramos divinos e bem dita seja a terra de Brás Cubas que acolheu seu corpo".
No informativo ADEPOM NEWS comandado pelo bom amigo cel. Nogueira publicou o conceito que o presidente Barack Obama sobre os militares que publicamos com a devida permissão:
Para que servem os militares?
"...É graças aos soldados, e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos.
É graças aos soldados, e não aos jornalistas, que temos liberdade de imprensa.
É graças aos soldados, e não aos poetas, que podemos falar em público.
É graças aos soldados, e não aos professores, que existe a liberdade de ensino.
É graças aos soldados, e não aos advogados, que existe o direito a um julgamento justo.
É graças aos soldados, e não aos políticos, que podemos votar..."
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
O LEVANTE DA ILHA ANCHIETA
A Ilha Anchieta é um recanto portentoso do litoral norte de São Paulo, conservando ainda as cicatrizes do Levante dos Presidiários, naquela tragédia da manhã de 20 de junho de 1952.
Naquele dia, nossa história registrou a tenebrosa ação de centenas de detentos, muitos de alta periculosidade, os quais, na ânsia de seus propósitos recalcados de liberdade e banditismo, assassinaram, com requintes de barbárie, dez Servidores do Estado, entre eles oito militares do 5.º BC, unidade sediada em Taubaté, hoje 5.º BPM/I.
Foi a rebelião comandada pelo detento João Pereira Lima. Os amotinados queriam ganhar o continente, subir os paredões da Serra do Mar, esconder-se nas densas matas, ludibriar os perseguidores e fugir da Justiça.
Nesse 20 de junho, era dia de corte de lenha, para o abastecimento das cozinhas do presídio. Dois turnos de presos foram organizados. Um de 17 detentos para o Morro do Papagaio, escoltado por apenas um soldado. O segundo turno de 100 detentos, na outra encosta do morro, para transportar, à sede, grande quantidade de lenha já cortada, vigiado por apenas 2 soldados.
Os três policiais estavam armados com mosquetões Mauser e os dois civis, agentes do presídio, também faziam parte da escolta, porém sem armamentos.
Facilmente os presos já combinados, dominaram as escoltas, apoderaram-se das armas e desceram em direção à Guarda Militar. Toda a guarnição foi presa, culminando os assassinatos. Não contentes, ainda tripudiaram sobre os cadáveres, com coronhadas e baionetadas.
Saldo da tragédia: 22 mortos e 24 feridos, alguns gravemente. Entre os mortos, registramos:
Sgto: Melchíades Alves de Oliveira e os Sds. Hilário Rosa, Octávio dos Santos, José Eugênio Pavarin, José do Carmo da Silva, José Laurindo, Bento Moreira e Benedito Damásio dos Santos.
Foram mortos os funcionários civis: Portugal de Souza Pacheco e Oswaldo dos Santos. Morreram também na refrega 12 presidiários.
Aconteceram os inquéritos de lei. Por muitos anos movimentaram-se as justiças militar e civil. Gastos imensos do Estado, na condução e recondução de presos, escoltas, reconstituições da luta, idas e vindas a Ubatuba, à Ilha, a Taubaté, a São Paulo, centenas de depoimentos ouvidos pelos magistrados do Fórum Castrense e Civil.
Mas, tudo isso se desvaneceu no tempo, tudo isso foi insignificante, todos esses gastos materiais nada representaram, comparados às feridas das almas daqueles, que foram testemunhas presenciais da fúria humana e dos que prantearam os entes queridos, mortos no tenebroso Levante da Ilha, até hoje fantasma e, no entanto, leva o nome tão lindo do Santo Brasileiro.
Imagem retirada de: www.ilhaanchieta.com.br/ruinas.htm
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
VAMOS, VAMOS, VAMOS...
Em 1955, substituindo o prof. Lucas Nogueira Garcês, assumiu o governo de São Paulo, o Dr.
Jânio da Silva Quadros, ficando no poder até setembro de 57, quando se desincompatibilizou, para concorrer às eleições
a Presidente da República (1959-1963).
Sua carreira política foi rápida: vereador em 1947, em janeiro de 1961
já tinha assento à Curul Presidencial,
na nova capital federal - Brasília, inaugurada um ano antes pelo grande
presidente Juscelino Kubitschek.
Fixemos Jânio Quadros em 1955, entronizado no Palácio dos Campos Elíseos.
Ele personificava a esperança do povo bandeirante, acreditando que a vassoura
(peça principal de sua campanha), iria varrer todos os corruptos do Estado. Ela
era exaltada em todos os comícios de rua, nas rádios e televisões, a figura de
Jânio empunhando-a num gesto teatral, cantando com o povo enlouquecido
"varre, varre vassourinha"...., canção cunhada em milhares e milhares de discos. Jânio era então o gênio do
populismo.
Nos trinta meses que governou São Paulo, ele destilou todo ódio à Força Pública,
diminuindo ou cortando nossas verbas orçamentárias, sofrendo a Cavalaria sem
milho e alfafa para os animais, a farmácia sem medicamentos, o Hospital Militar
carente de meios para cuidar da saúde dos nossos homens.
Nesse estado de coisas brotou, nas mentes e nos corações dos tenentes da
época, uma ideia revolucionária para o desagravo; a ordem era depor dos Campos Elíseos,
aquele governador rancoroso, autoritário, que ofendia a honra da tropa de
Tobias de Aguiar.
Inspiramo-nos, então, no Tenentismo de Cabanas e Miguel Costa, este
monstro sagrado da nossa história, que assombrou a nação, comandando a maior
marcha militar do planeta.
O que
teria acontecido para tanto ódio à nossa Corporação? Sem dúvida os nossos
milicianos dos batalhões de Choque, patrulhas de área ou lanceiros a
galope, teriam a agido às vezes com
energia, para a manutenção da ordem, nas manifestações excessivas ou
desordeiras de seus apaixonados seguidores. E foram muitos os conflitos!
“Navegar era preciso”, combater Jânio Quadros
também era. Começamos as reuniões secretas, realizadas à noite em dois pontos
estratégicos: o primeiro no Hospital Militar da Rua Jorge Miranda e outro no Quartel
General em construção na Praça Fernando Prestes.
As ordens de reuniões eram enviadas para mais
de 200 tenentes, mas a decepção vinha no dia seguinte, quando poucos compareciam,
a maioria nos decepcionava. Perguntávamos então a todos os faltosos a
razão do não comparecimento e a resposta vinha sempre atrapalhada, demonstrando
certa covardia, pois eles teriam comparecido no QG novo quando a ordem era no
QG velho ou no hospital velho quando a ordem era no hospital novo.
De tanta demora, delongas, Jânio havia interrompido seu governo,
candidato a presidente da República, fato assinalado acima. Seu substituto foi
o prof. Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto que pagou o pato, e a
revolta estourou em suas mãos.
Depois de ordens e contra ordens chegou o dia
fatal, ou melhor, a noite fatal, agora contra Carvalho Pinto, que também
continuou com as mesmas negativas de Jânio. A ordem aos tenentes, agora por
escrito, determinava a data, local e a
hora para o início de nossa luta, que começaria às 20h no hospital militar
velho. O novo estava sendo construído no Barro Branco.
Éramos
então duas centenas de combatentes, desfraldando a Bandeira do Tenentismo, no
pátio que hoje pertence a quatro Entidades, a Capelania Militar, o CAES , o
Museu Militar e o Serviço de Subsistência.
Nessa memorável noite, eu me lembro bem, o
Tenente Melo atrasou-se, pois o bonde Vila Mariana-Ponte Grande (que saudades
dos bondes de outrora!...) demorou muito.
Em chegando ao pátio do hospital velho, espantado, ouviu um
grito aterrador:
"PASSO O COMANDO DA TROPA AO TENENTE MELO"
O susto foi enorme, aumentado geometricamente, quando
o tenente, que não me lembro o nome, numa posição espartana, o assustou ainda
mais, com a seguinte advertência:
Melo perdeu o chão e observou que o Estado Maior
já tinha 3 chefes, naturalmente a tropa já havia tido três comandantes. Lívido, a pressão alta, o coração a duzentos por
hora, perguntou a si mesmo: E agora, o
que é que eu faço?
Seu
antecessor o torturava de minuto a minuto, com a voz tonitruante, aumentando sua
aflição, com a mesma advertência:
MELO VAMOS, VAMOS, VAMOS! EU IA
PARTIR COM A TROPA PARA O ASSALTO AO QG E DEPOIS AO
PALÁCIO MAS...
O tempo
ia passando e ele não teve outra alternativa, não teve dúvidas, respirou fundo
e assumiu o comando da tropa. O Chefe do Estado Maior, sádico, não lhe dava trégua, repetindo sempre aquela
frase aterradora: Melo vamos, vamos,
vamos...
Entrementes, com a carcaça tremendo, ele procurava alguém, os olhos
atentos vasculhando o território todo, na esperança de vislumbrar qualquer alma
penada mas que fosse mais antiga que ele ou seu superior; os segundos pareciam
uma eternidade e ele, ansiado,
transpirando, com vontade de ir ao
banheiro mas eis que um milagre aconteceu!!! Ele exultou, levitou, flutuando
entre as nuvens, parecendo ter ganho a sorte grande da loteria federal. É que divisou, na penumbra da noite,
um vulto com três galões nos ombros, era o capitão X. Reuniu então todas as
forças possíveis, físicas, morais e espirituais e berrou, urrou como uma fera:
PASSO O COMANDO DA TROPA AO
EXMO SR. CAPITÃO X, BRILHANTE OFICIAL DA NOSSA
QUERIDA FORÇA PÚBLICA.
Com esse urro, a cavalhada do Regimento fez um tropel
nas baias, arrebentando as correntes; os passarinhos, empoleirados nas
árvores, saíram todos em revoada,
procurando outros ninhos em verdes motéis e os doentes do hospital pegaram seus
rosários, beijaram o Cristo, certos do fim do mundo.
Melo então se vingou, transferindo
ao capitão aquelas advertências diabólicas daquele malvado Tenente, seu antecessor:
SENHOR CAPITÃO, VAMOS, VAMOS , VAMOS. EU
IA PARTIR COM A TROPA PARA O ASSALTO AO QUARTEL GENERAL E DEPOIS AO PALÁCIO MAS
O SENHOR CHEGOU, O SENHOR É MEU SUPERIOR, O COMANDO É DE V.SA. EU ASSUMO O ESTADO MAIOR.
Os relógios marcavam 22:00
horas! O capitão, pálido e vacilante,
perscrutava os horizontes, e nada, nada
e o Tenente Melo, com aquelas cutucadas, aquelas advertências: Senhor capitão
vamos, vamos, vamos, eu ia sair mas...
Sinuca
de bico, pensou. Um fato inusitado aconteceu, pois o capitão reuniu toda a
tropa em seu redor e, empostando a voz, discursou:
Jovens
Tenentes, meus amigos! O Major R, guerreiro como nós, está nos esperando na
Academia do Barro Branco. Ele possui várias viaturas, para o transporte aos
nossos objetivos, naturalmente ele no comando, para a arrancada heróica, a
nossa luta do desagravo. Confiem meus nobres
Oficiais nas minhas palavras, vamos defender a gloriosa Força Pública!
O
Tenente Melo, agora como chefe do Estado Maior notou, na virada da Avenida
Tiradentes, que os pelotões estavam esvaziados, somando ao todo apenas 60
“patriotas”. Na subida da Avenida Água Fria éramos apenas 30.
Esfalfados,
chegamos na Academia apenas 15 idealistas, os relógios marcando 5:00 horas. O major, com a guarda do quartel armada com metralhadoras, nos prendeu em nome da
legalidade - triste madrugada foi aquela...
Éramos agora 15 prisioneiros, réus em 15 Inquéritos Policiais Militares,
nossa Bastilha em Sorocaba, no 7.º Batalhão comandado pelo Coronel
Divo Barsotti.
Em tempo: coitado de
Carvalho Pinto, pois em junho de 1961 houve outra rebelião, agora mais grave;
foi um motim iniciado no Corpo de Bombeiros, os tenentes hasteando uma bandeira preta no quartel da
Praça da Sé. O Aspirante Edil Daubien, comandando um comboio de carros valiosíssimos dos
Bombeiros, entregando-os ao Governador Carvalho Pinto, com a seguinte mensagem:
Esses
carros são de grande valia e não devem ser pilotados por policiais com salário
de fome e uniformes esfarrapados; mas isto é uma outra história!
domingo, 13 de janeiro de 2013
MUTUM E CHICO PRETO
Nosso instrutor de Armamento, Material e Tiro, na Academia do Barro Branco, era o Tenente Aquino, audaz cavalariano, várias vezes campeão nos torneios hípicos, como Salto, Pólo, Adestramento e outras competições que a maravilha do cavalo proporciona.
Suas aulas, teóricas ou práticas, dadas com objetividade e motivação, duravam quarenta minutos e, nos dez restantes, o assunto era livre, permitindo perguntas, respondidas com maestria, fazendo também os seus questionamentos importantes, que muito contribuíram para o aprimoramento da nossa cultura.
Como oficial do Regimento “9 de Julho”, tinha direito a dois cavalos, adestrados com muito carinho, para as disputas internas ou na Sociedade Hípica Paulista, concorrendo também em outros Estados e no Distrito Federal, na época Rio de Janeiro.
Um detalhe, o tenente gostava de futebol e era um fanático sãopaulino. Muitas vezes, ao iniciar a aula, um cadete mais afoito lembrava de uma vitória tricolor ou de uma conquista sua na equitação, montando os seus cavalos, Mutum ou Chico Preto, aí o mestre Aquino “arquivava” suas anotações sobre a matéria e os cinquenta minutos regulamentares, mais os dez de intervalo, avançando mesmo no horário do outro professor, eram absorvidos nas exposições detalhadas daqueles eventos vitoriosos, futebol ou hipismo (a bem da verdade, ele repunha a matéria na aula seguinte, não prejudicando o calendário elaborado pelo Diretor de Ensino).
Ficávamos maravilhados pela exuberância de seu discurso, descrições homéricas, parecendo um ator famoso, num teatro repleto de aficionados, representando uma peça ou uma ópera. Leônidas, o “Diamante Negro”, era o seu ídolo, e na descrição do “Gol de Bicicleta”, o mestre gesticulava, energizando todo o corpo, levantando os braços e as pernas chutando não a bola e sim as pernas de um aluno; numa ocasião, dramatizando demais o salto do Mutum, quebrou duas cadeiras da sala de aula.
Mas um dia, inesquecível dia, era uma segunda-feira. No domingo, montando Chico Preto, havia conquistado a Taça, numa competição entre os melhores Oficiais do Regimento.
Adentrou à sala de aula, ar circunspecto, demonstrando certa fadiga. Recebeu a saudação regulamentar e, incontinente, mandou buscar uma metralhadora, objeto de sua aula prática, sobre o funcionamento de uma arma automática.
- Meus alunos, quinta-feira passada os senhores aprenderam toda a nomenclatura de uma metralhadora e agora vamos à teoria do tiro, que pode ser intermitente, isto é, tiro a tiro, e automático. Municiada a arma, dado o primeiro tiro, os gases expandidos levam a culatra para trás, aí a mola propulsora a empurra para frente, ejetando o cartucho, ao mesmo tempo que o percursor detona outro tiro. Se o dedo do atirador permanecer acionando o gatilho, teremos o tiro contínuo, automático, propiciando as rajadas...
- “Seu Tenente, posso fazer uma pergunta para o senhor?”
(era aquele aluno afoito, cara de pau).
- É sobre a matéria?
- Não “seu” Tenente, é que a classe inteira quer dar os parabéns ao senhor, pela grande vitória, obtida ontem no picadeiro do Regimento; o senhor montou o Chico Preto ou o Mutum?
Nesse ponto, Aquino transmudou-se, foi às nuvens, sorriso nos lábios, brilho nos olhos, alma em festa, começou a descrever sua soberba conquista:
- Eram doze obstáculos a percorrer em doze minutos, uma prova muito difícil. Então enquadrei Chico Preto nas ajudas e parti, pocotó, pocotó, pocotó, prolop, prolop, prolop (pocotó=trote e prolop=galope, termos onomatopaicos), saltei o primeiro obstáculo com zero falta, fiz uma curva à direita e pocotó, pocotó, pocotó, pocotó, prolop, prolop, prolop, prolop, venci o segundo obstáculo, uma cancela de dois metros de altura; o terceiro, o quarto e o quinto eram muito altos, com fossos retangulares cheios de água, aí eu levei os dois braços para a frente, roçando com as rédeas o pescoço de Chico Preto e pocotó, pocotó...
Nesse instante a porta da sala se abriu, entrando uma luzida comitiva – suspense, calafrios em todos nós, assustados com tantas estrelas, gemadas, galões resplandescentes, botas reluzentes, esporas brilhando, alamares faiscando.
Era o General Luiz Gaudie Ley, Comandante Geral da então Força Pública, com todo o seu Estado Maior e mais os Coronéis Diretor Geral de Instrução, Comandante do Centro de Instrução Militar (hoje Academia do Barro Branco), Diretor de Ensino e Capitães Ajudantes de Ordens... espetáculo inusitado e maravilhoso para nós, jovens alunos.
Mestre Aquino não se perturbou, e com uma calma indescritível “apeou” do Chico Preto e “montou” na metralhadora.
- Escola, Sentido! Pronto Senhor General, estava terminando uma aula de Armamento e Tiro. Peço licença a V. Exa para concluí-la.
- PERMISSÃO CONCEDIDA, Tenente!
Bem meus alunos, como estava explicando, se o atirador continuar pressionando o gatilho, o tiro da arma será automático, provocando as rajadas de metralhadora. Na próxima semana praticaremos o tiro no stand do Barro Branco.
O General ficou encantado, cumprimentando efusivamente o nosso instrutor, manifestando orgulho em comandar a Tropa Paulista. Recordou os seus tempos de juventude, o início de sua carreira nas terras gaúchas e, com muita eloquência, descreveu toda a sua carreira até o Generalato.
Passaram os anos, em 1944 fomos declarados Aspirantes a Oficial, a primeira turma a se formar no Barro Branco.
Em 1994, reunimos os dez remanescentes (Éramos 38 e, agora, neste dezembro de 2009, somos apenas meia dúzia) e convidamos o mestre Aquino, para compartilhar conosco a alegria, nesse momento tão maravilhoso. Na Capelania, após a missa de Ação de Graças, sentimos sua religiosidade, ele ajoelhado, fazendo suas orações frente ao nosso Padroeiro, o milagroso Santo Expedito.
Em seguida, na Academia do Barro Branco, com muita emoção, assistimos, os novos Cadetes, desfilando em nossa homenagem, arrancando-nos lágrimas dos olhos, do coração e da alma.
Percorremos todo o Quartel e sentimos que uma ilusão gemia em cada canto e chorava em cada canto uma saudade.
No almoço, o nosso querido Aquino, à cabeceira da mesa, era o dono da festa. Cada um de nós era um artista, dramatizando tudo, todos os momentos idos e vividos, em torno do grande mestre, que ria, gargalhava, por horas e horas. Os assuntos giravam, todos, em torno de futebol, de seus cavalos, da cena do General Comandante, ele apeando do Chico Preto e “montando na metralhadora...”
Quatro anos depois, o querido mestre Aquino, beirando os 90 anos, nos deixou, voou para a Eternidade, escoltado por um certo Centurião, Comandante da Cavalaria Expedita, iluminado pelas cintilações de mil galáxias.
Suas aulas, teóricas ou práticas, dadas com objetividade e motivação, duravam quarenta minutos e, nos dez restantes, o assunto era livre, permitindo perguntas, respondidas com maestria, fazendo também os seus questionamentos importantes, que muito contribuíram para o aprimoramento da nossa cultura.
Como oficial do Regimento “9 de Julho”, tinha direito a dois cavalos, adestrados com muito carinho, para as disputas internas ou na Sociedade Hípica Paulista, concorrendo também em outros Estados e no Distrito Federal, na época Rio de Janeiro.
Um detalhe, o tenente gostava de futebol e era um fanático sãopaulino. Muitas vezes, ao iniciar a aula, um cadete mais afoito lembrava de uma vitória tricolor ou de uma conquista sua na equitação, montando os seus cavalos, Mutum ou Chico Preto, aí o mestre Aquino “arquivava” suas anotações sobre a matéria e os cinquenta minutos regulamentares, mais os dez de intervalo, avançando mesmo no horário do outro professor, eram absorvidos nas exposições detalhadas daqueles eventos vitoriosos, futebol ou hipismo (a bem da verdade, ele repunha a matéria na aula seguinte, não prejudicando o calendário elaborado pelo Diretor de Ensino).
Ficávamos maravilhados pela exuberância de seu discurso, descrições homéricas, parecendo um ator famoso, num teatro repleto de aficionados, representando uma peça ou uma ópera. Leônidas, o “Diamante Negro”, era o seu ídolo, e na descrição do “Gol de Bicicleta”, o mestre gesticulava, energizando todo o corpo, levantando os braços e as pernas chutando não a bola e sim as pernas de um aluno; numa ocasião, dramatizando demais o salto do Mutum, quebrou duas cadeiras da sala de aula.
Mas um dia, inesquecível dia, era uma segunda-feira. No domingo, montando Chico Preto, havia conquistado a Taça, numa competição entre os melhores Oficiais do Regimento.
Adentrou à sala de aula, ar circunspecto, demonstrando certa fadiga. Recebeu a saudação regulamentar e, incontinente, mandou buscar uma metralhadora, objeto de sua aula prática, sobre o funcionamento de uma arma automática.
- Meus alunos, quinta-feira passada os senhores aprenderam toda a nomenclatura de uma metralhadora e agora vamos à teoria do tiro, que pode ser intermitente, isto é, tiro a tiro, e automático. Municiada a arma, dado o primeiro tiro, os gases expandidos levam a culatra para trás, aí a mola propulsora a empurra para frente, ejetando o cartucho, ao mesmo tempo que o percursor detona outro tiro. Se o dedo do atirador permanecer acionando o gatilho, teremos o tiro contínuo, automático, propiciando as rajadas...
- “Seu Tenente, posso fazer uma pergunta para o senhor?”
(era aquele aluno afoito, cara de pau).
- É sobre a matéria?
- Não “seu” Tenente, é que a classe inteira quer dar os parabéns ao senhor, pela grande vitória, obtida ontem no picadeiro do Regimento; o senhor montou o Chico Preto ou o Mutum?
Nesse ponto, Aquino transmudou-se, foi às nuvens, sorriso nos lábios, brilho nos olhos, alma em festa, começou a descrever sua soberba conquista:
- Eram doze obstáculos a percorrer em doze minutos, uma prova muito difícil. Então enquadrei Chico Preto nas ajudas e parti, pocotó, pocotó, pocotó, prolop, prolop, prolop (pocotó=trote e prolop=galope, termos onomatopaicos), saltei o primeiro obstáculo com zero falta, fiz uma curva à direita e pocotó, pocotó, pocotó, pocotó, prolop, prolop, prolop, prolop, venci o segundo obstáculo, uma cancela de dois metros de altura; o terceiro, o quarto e o quinto eram muito altos, com fossos retangulares cheios de água, aí eu levei os dois braços para a frente, roçando com as rédeas o pescoço de Chico Preto e pocotó, pocotó...
Nesse instante a porta da sala se abriu, entrando uma luzida comitiva – suspense, calafrios em todos nós, assustados com tantas estrelas, gemadas, galões resplandescentes, botas reluzentes, esporas brilhando, alamares faiscando.
Era o General Luiz Gaudie Ley, Comandante Geral da então Força Pública, com todo o seu Estado Maior e mais os Coronéis Diretor Geral de Instrução, Comandante do Centro de Instrução Militar (hoje Academia do Barro Branco), Diretor de Ensino e Capitães Ajudantes de Ordens... espetáculo inusitado e maravilhoso para nós, jovens alunos.
Mestre Aquino não se perturbou, e com uma calma indescritível “apeou” do Chico Preto e “montou” na metralhadora.
- Escola, Sentido! Pronto Senhor General, estava terminando uma aula de Armamento e Tiro. Peço licença a V. Exa para concluí-la.
- PERMISSÃO CONCEDIDA, Tenente!
Bem meus alunos, como estava explicando, se o atirador continuar pressionando o gatilho, o tiro da arma será automático, provocando as rajadas de metralhadora. Na próxima semana praticaremos o tiro no stand do Barro Branco.
O General ficou encantado, cumprimentando efusivamente o nosso instrutor, manifestando orgulho em comandar a Tropa Paulista. Recordou os seus tempos de juventude, o início de sua carreira nas terras gaúchas e, com muita eloquência, descreveu toda a sua carreira até o Generalato.
Passaram os anos, em 1944 fomos declarados Aspirantes a Oficial, a primeira turma a se formar no Barro Branco.
Em 1994, reunimos os dez remanescentes (Éramos 38 e, agora, neste dezembro de 2009, somos apenas meia dúzia) e convidamos o mestre Aquino, para compartilhar conosco a alegria, nesse momento tão maravilhoso. Na Capelania, após a missa de Ação de Graças, sentimos sua religiosidade, ele ajoelhado, fazendo suas orações frente ao nosso Padroeiro, o milagroso Santo Expedito.
Em seguida, na Academia do Barro Branco, com muita emoção, assistimos, os novos Cadetes, desfilando em nossa homenagem, arrancando-nos lágrimas dos olhos, do coração e da alma.
Percorremos todo o Quartel e sentimos que uma ilusão gemia em cada canto e chorava em cada canto uma saudade.
No almoço, o nosso querido Aquino, à cabeceira da mesa, era o dono da festa. Cada um de nós era um artista, dramatizando tudo, todos os momentos idos e vividos, em torno do grande mestre, que ria, gargalhava, por horas e horas. Os assuntos giravam, todos, em torno de futebol, de seus cavalos, da cena do General Comandante, ele apeando do Chico Preto e “montando na metralhadora...”
Quatro anos depois, o querido mestre Aquino, beirando os 90 anos, nos deixou, voou para a Eternidade, escoltado por um certo Centurião, Comandante da Cavalaria Expedita, iluminado pelas cintilações de mil galáxias.
CURIOSIDADES
- Na Revolução Constitucionalista, São Paulo se armou cavaleiro de olímpica aventura, empolgando a alma cívica da nação. Júlio Marcondes Salgado, o nosso general, herói-mártir, erigiu-se em símbolo da vontade e da honra das gentes bandeirantes;
- A milícia paulista foi a primeira organização do Brasil que recebeu instrução militar do exército francês;
- O primeiro núcleo organizado do ensino de esgrima no Brasil foi a sala d'armas fundada pelo então alferes Pedro Dias de Campos, no 1 BC, hoje 1º BP Choque;
- Foi no campo do Guapira, hoje Parque Edu Chaves, que nasceu a aviação militar no Brasil.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
JOÃO ANTÔNIO DE OLIVEIRA - O “TENENTE GALINHA”
O famoso e sempre lembrado “Tenente Galinha”– oficial da
antiga Força Pública, João Antônio de Oliveira – o temido caçador de bandidos,
cujo nome está ligado à história do combate ao crime, tornando-se, no seu tempo
e mesmo nos nossos dias, uma figura de legenda.
Varou, o destemido militar, os sertões
paulistas de lado a lado e foi buscar, afoitamente, vivo ou morto, o bandoleiro
mais temeroso, e o seu renome de intrepidez correu mundo, afugentando os mais
valentes e deixando, na volumosa folha de serviços, a gloriosa reputação de
haver, qual novo bandeirante, saneado os inabitáveis rincões.
O Tenente Galinha ficou, para sempre
popularizado, na crônica policial pelas inomináveis façanhas sem par, que
assinalaram uma época, a época que lhe tomou o nome. Chefiou como ninguém, por
dilatados anos, o selecionado Pelotão de Capturas, que percorria,
ininterruptamente, prestando relevantes serviços a São Paulo.
Sua
equipe era de soldados escolhidos a dedo, e dos quais exigia uma qualidade
primordial: não ter medo. Sua fama de homem valente se alastrou de tal forma,
que muitos episódios e muitos casos se inventaram e criaram por aí, aureolados
de pura lenda, e que, no entanto, passaram à categoria das coisas verídicas.
João Antônio de Oliveira era o tipo do homem
forte, alto, cheio de corpo, espadaúdo, claro, olhos castanhos muito
brilhantes, pequenos e vivos, a bailarem nervosamente dentro de duas grossas
pálpebras pestanudas. Os cabelos muito escassos, alourados, as mãos grossas,
maltratadas pelo rude trabalho, através dos sertões. De ordinário se trajava à
paisana e dava preferência a um paletó talhado à francesa, de cor azul-marinho
quase negro, com um colete longamente aberto, gravata sempre de cores vivas, de
laço por fazer, apertando um colarinho baixo, de pontas viradas; e umas calças
de casimira clara e umas botinhas amarelas. Completava-lhe o traje habitual,
largo chapéu mole, marrom, constantemente descido sobre os olhos quase a
chegar-lhe às sobrancelhas. Trazia sempre preso à ilharga esquerda, numa bolsa
segura ao largo cinto de couro, finíssimo revólver “Smith & Wesson”, último
modelo, de que não se separava nunca.
Emérito conhecedor de armas de fogo, de que
se mostrava exímio manejador, tinha pontaria infalível, sendo muito raro perder
um tiro. O popularíssimo policial era capaz de derrubar um pássaro a longa
distância, façanha de que se tornara autêntico campeão.
A respeito da vida aventurosa do Tenente
Galinha, narram-se, por aí, às centenas, façanhas capazes de fazer eriçar os
cabelos dos mais afoitos. Era tão grande o prestígio do seu renome, sertão
afora, que muitas vezes, os mais temerosos bandidos se dobravam trêmulos,
pálidos de susto, jogando-se a seus pés, ao perceberem que se encontraram diante
do afamado chefe do Pelotão de Capturas.
Conta-se que, em certa tarde, numa venda
levantada à beira da estrada, que ia ter aos Campos Novos, o caçador de
bandidos encontrou um tal de Lino Ferro, negralhão, valente como os mais
valentes, o qual de uma feita, numa função de roça, a golpes de faca,
assassinara dois homens, fugindo em seguida, apesar de ter recebido em pleno
peito um tiro de garrucha.
À procura do homicida andava o tenente. Viu-o
e, de manso, calmamente aproximou-se dizendo-lhe ao ouvido:
-
Meu amigo, dá-me duas palavras...
- Mas quem é você, replicou o
criminoso, desconfiado, de mão na coronha de sua carabina.
-
Sou o “Alferes Galinha”!
O
negralhão, como que atingindo por uma faísca elétrica, caiu ao solo.
A simples enunciação
do nome daquele homem, que cavalgava um rosilho de ínfima qualidade, com o
largo chapéu desabado sobre os olhos, a empunhar um clavinote curto, prestes a
disparar, aterrara-o!
Pouco depois, voltando a si da dolorosa surpresa, o colosso
já se achava entre os soldados da escolta e de mãos amarradas às costas.
Vencido este, o nosso herói já tinha plano para nova
façanha, novo entrevero, de que se saia sempre vitorioso, pois estava
acostumado a lutar, às vezes sozinho, com dez ou vinte bandidos, no seio da
noite, entre o zunir de balas e o tilintar de punais.
Quase todas as noites, quando não estava
viajando, costumava procurar a reportagem credenciada junto à Polícia Central,
e ali se deliciava em contar, com algum exagero, as peripécias da sua vida.
Mantinha ativa correspondência com pessoas do interior, e pela qual obtinha,
com frequência, a localização de criminosos foragidos.
Quase sempre, ao concluir suas emocionantes
narrativas, caracterizadas por um cunho de saborosos contos policiais, apesar
do linguajar desataviado, usando e abusando de termos da gíria e de baixo
calão, o homem sem medo costumava rematar com esta frase:
-
Não sou tão mau, como dizem. É
preciso ser ”brabo” às vezes.
O tenente era de uma extraordinária dedicação
à polícia, dentro da qual se fizera e criara tão derramada popularidade. Assim,
quando se instalou o curso de Oficiais da Força Pública, imprescindível para a
promoção, ele abdicou desse privilégio, pois achava que era mais importante um
ano no sertão, arriscando a vida para o bem da sociedade, em vez de quedar-se
nos bancos escolares para ser tenente ou capitão. Prejudicou, com isso sua
carreira, mas se realizou, vivendo perigosamente.
A par de ótimos serviços, que muito
contribuíram para o sossego das populações do interior, alarmadas com as proezas
de terríveis salteadores e facínoras, “João Galinha” era acusado de
perversidades e vandalismos, que garantem, praticava por divertimento, apenas
para satisfazer aos seus instintos maus. Não se sabe, com segurança, se essas
acusações são procedentes ou inventadas pelos seus inimigos.
Era corrente, por exemplo, a versão de que
ele não costumava trazer presos os criminosos capturados, mas exclusivamente
suas orelhas enfiadas num arame...
Em
todo caso, é inegável que o famoso militar escorrassou do seio da sociedade,
onde constituíam grave perigo à sua tranquilidade, numerosos elementos
perigosos, que graças à ele foram espiar, nos cárceres os seus crimes.
O Alferes Galinha teve, com o desenrolar de
sua própria vida, um final trágico. Morreu na madrugada de 13 de abril de 1913,
assassinado em seu leito, enquanto dormia. Só assim poderiam trucidá-lo.
O crime entregue à elucidação do Dr.
Mascarenha Neves, da 5ª Delegacia, parecia, a princípio, revestir-se de
mistério. A opinião pública empolgou-se vivamente com a tragédia. Mas, dentro
de três ou quatro dias estava tudo perfeitamente esclarecido com a confissão e
a acareação dos criminosos, que foram o Inspetor de Polícia Israel Coimbra,
Benedito Silva, alcunhado de “Manquinho” e Benedita de Oliveira, esposa do tenente.
Foi vítima de sua mulher e de seu melhor
amigo, pois Israel Coimbra viera de Barretos, trazido pelo próprio tenente, que
conseguiu uma nomeação como Agente de Segurança, no Departamento de
Investigações.
O móvel do crime foi um seguro de vida, feito
por Galinha, beneficiando Benedita de Oliveira e o filho Pretextato. Seria o
“crime perfeito”, a trama não podia falhar, pois armaram a tragédia e a
consumaram, dando a impressão de que o tenente fora vítima de ladrões ou de
inimigos que, por certo, ele os tinha e muitos.
Assim, passados tantos anos de tão trágico
drama, relembramos o nome do Tenente Galinha, cuja vida decorreu entre
peripécias de verdadeira novela policial. Ele emerge soberano, fazendo vibrar
nossos corações, pois, seus atos de bravura se entrelaçam com estórias
fantásticas. É o herói, o famoso lutador João Antônio de Oliveira, imortalizado
nas ruas da metrópole (há uma rua em sua homenagem, travessa da Rua da Mooca,
na altura da Imprensa Oficial do Estado), e na alma popular paulista. Ele
arriscou sua vida, defendendo a ordem, a lei, as conquistas do progresso, em
andanças maravilhosas pelos sertões, na mais perigosa das caçadas, a de
bandidos terríveis, à frente do Pelotão de Capturas do 5º. Batalhão da Milícia
Paulista. É o paradigma dos bravos e dos desprendidos, o símbolo do servidor do
Estado e da Pátria, o exemplo para atual e vindouras gerações da extremada
Polícia Militar de São Paulo.
Nota: Sobre o
apelido “Galinha”, contou-me um antigo comandante o seguinte: natural
de Capivari, na juventude, cometia junto com colegas furtos de aves e passavam
as madrugadas (principalmente em velórios), degustando as penosas. Aos
vinte anos alistou-se na Força Pública, alcançando, por estudos, a promoção a
Alferes, posto correspondente ao 2º. tenente, sendo mandado para comandar o
destacamento de sua cidade natal.
Seus amigos, aqueles jovens das galinhadas, já
homens feitos, cometiam estripulias pela cidade, infrações, pequenos delitos e
o Alferes João Antônio de Oliveira não tinha contemplação, prendia-os e os
recolhia ao xadrez.
Os presos
reclamavam, chamando o amigo Alferes para soltá-los, alegando a antiga amizade,
mas o tenente não atendia, em função da sua responsabilidade, era um defensor
da lei.
As cenas se repetiam constantemente e as
lamentações também, principalmente em
fins de semana:
- João, lembra daquelas madrugadas, das galinhadas?
Você é nosso amigo... tire-nos daqui...
O Alferes continuava intransigente. Enfurecidos pela
indiferença do ex amigo, começaram a chamá-lo de João Galinha, Alferes Galinha,
Tenente Galinha, e o apelido pegou.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Cabo Luiz da Gama
Luiz Gonzada Pinto da Gama foi de cabo de esquadra graduado, do Corpo Policial Permanente, ao brilhante advogado da libertação negra no Brasil.
Sua vida foi uma lição de amor, encerrando uma sublimidade inconfundível. Ei-la:
Nasceu Luiz Gama a 21 de junho de 1830, na rua do Bangala em Salvador da Bahia, filho natural de amores não legalizados. Sua mãe era uma negra Mina e o pai, branco, pertencia a uma rica família muito considerada na primeira capital do Brasil.
Viveu o pequeno seus primeiros anos num casebre, com sua mãe, a quem ajudava nos arranjos caseiros, acompanhando-a na venda dos quitutes pelas ruas da capital baiana.
O pai, que vinha de noite à casa da mãe, contava das caçadas e pescarias que fazia, das cavalgadas ruidosas e divertimentos de armas com seus amigos fidalgos e isso tudo empolgava o filho, que via nele o herói de tantas aventuras, inclusive da luta nativista da Sabinada.
Com dez anos, veio a morar no Rio de Janeiro, ocasião em que o pai, estroina, viciado no jogo, vendeu o filho como escravo.
Teve muitos donos e conheceu muitas senzalas, sofrendo em suas carnes o chicote do feitor.
De mão em mão chegou em São Paulo, já com 17 anos, servindo ao Alferes Cardoso, onde aprendeu a ler, a escrever e contar, graças a Antonio Rodrigues do Prado Jr., a esse tempo estudante da faculdade de Direito. Com esses conhecimentos assentou praça Corpo Policial Permanente, pois como soldado não poderia ser incomodado pelo seu dono.
Serviu à milicia durante 6 anos, sendo ordenança do Conselheiro Furtado de Mendonça, de quem se tornou grande amigo.
Esse convívio foi sua grande universidade, pois no gabinete, entre as suas refeições e a noite, ele compulsava os clássicos, os mestres do Direito e do pensamento humano.
Estudando com afinco ele não esquecia a sorte dos negros, de seus desventurados irmãos escravos.
Certa vez, ao repelir a insolência de um oficial que o maltratou, porque ousara defender um escravo que apanhava, foi preso por trinta dias, aproveitando esse tempo, na cela, para leituras e estudos.
Devorou livros pelo anseio de saber, passando a trabalhar no mesmo gabinete de Furtado de Mendonça, e nessa oportunidade sentiu a inclinação para a ciência do Direito.
Em 1856 foi nomeado Amanuense da Secretaria da Polícia até 1868, época em que perseguido, foi demitido "a bem do serviço público" , simplesmente pelo fato de ser um liberal exaltado, de promover, pelos meios judiciários, a liberdade de negros cativos e de conseguir alforrias, na medida de suas posses.
Dedicou-se ao jornalismo, escrevendo para os jornais, em prosa e verso, chegando a redator do "Radical Paulistano". Foi também orador dos mais brilhantes. São de sua autoria as "Trovas Burlescas", "Getulino" e "A Bodarrada".
Na imprensa tinha o pseudônimo de "Afro", representando a grita do pensamento jovem contra os escravagistas, tornado-o grande advogado dos escravos e o terror dos senhores.
Estes puseram sua cabeça a prêmio, sendo constantemente processado, atocaiado e ameaçado de morte.
Na Convenção de Itu, em 1873, levantou a questão da completa liberdade dos escravos no Brasil. Essa liberdade se deu em 1888, fruto da semeadura de Luiz Gama, entretanto ele não a assistiu, pois morreu em 1882.
Seus funerais foram uma apoteose. Velhos, moços, mulheres, crianças, brancos e pretos, numa procissão interminável levaram seu esquife até o cemitério da Consolação.
Lindo o seu destino, pois foi escravo que se libertou das algemas da ignorância, para poder lutar pela liberdade de seus irmãos negros.
Um de seus filhos ingressou no Corpo de Bombeiro, galgando o oficialato. Foi o capitão Pinto da Gama que serviu à Corporação até os primeiros anos do século XX.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
CORONEL PEDRO ÁRBUES RODRIGUES XAVIER
O 1º Tenente Eliziário
Chaves, chefe do Setor de Comunicação Social do 6 BPM/I-Santos, a Pátria de
Bráz Cubas, que os índios do Planalto à chamavam de Paranapiacaba (A terra de
onde se vê o mar), cultor da História, perguntou-me sobre o Coronel Pedro
Árbues Rodrigues Xavier, patrono da heróica Unidade da Baixada Santista, que se
imolou na Revolução de 1930, em Cananeia, na defesa dos ideais das Gentes
Bandeirantes.
Meu Caro Tenente Eliziário, do livro ''Asas e Glórias de São Paulo'' (Autoria dos Ceis. José Canavó Filho e Edilberto de Oliveira Mello), extraímos do capítulo (A Revolução de 1930), o artigo sobre a figura do nosso herói mártir, Coronel Pedro Árbues Rodrigues Xavier.
Pedro Árbues Rodrigues Xavier é a síntese do heroísmo de um soldado. Proferiu aquele juramento sagrado e o cumpriu integralmente, pois defendeu a Lei com o sacrifício da própria vida.
Já reformado, com sessenta e um anos de idade, o coronel Árbues apresentou-se ao Comando da Força, voluntariamente, em outubro de 1930, para o serviço de guerra, quando as forças do Sul pretendiam invadir São Paulo, demandar o Rio de Janeiro e depor o grande Presidente Washington Luís.
O Quartel General era toda vibração patriótica e suas dependências se apinhavam de oficiais e praças inativos, possuídos de grande entusiasmo e orgulhosos de poderem prestar mais um serviço à gloriosa Milícia Paulista.
Muitos envergavam ainda uniformes fora de moda mas todos se mostravam garbosos e varonis, trazendo no peito o mesmo ardor combativo dos tempos passados, nas lutas por São Paulo e pelo Brasil. Empertigavam-se ao cruzarem os portões do Quartel, lembrando as glórias da tropa bandeirante, pressurosos em voltarem ao teatro das contendas.
Pedro Árbues, o primeiro deles, apesar da idade, ainda conservava aquele mesmo porte espartano do tempo da mocidade, quando se alistara no primeiro Corpo da então Brigada Policial, em fins do século 19.
Meu Caro Tenente Eliziário, do livro ''Asas e Glórias de São Paulo'' (Autoria dos Ceis. José Canavó Filho e Edilberto de Oliveira Mello), extraímos do capítulo (A Revolução de 1930), o artigo sobre a figura do nosso herói mártir, Coronel Pedro Árbues Rodrigues Xavier.
Pedro Árbues Rodrigues Xavier é a síntese do heroísmo de um soldado. Proferiu aquele juramento sagrado e o cumpriu integralmente, pois defendeu a Lei com o sacrifício da própria vida.
Já reformado, com sessenta e um anos de idade, o coronel Árbues apresentou-se ao Comando da Força, voluntariamente, em outubro de 1930, para o serviço de guerra, quando as forças do Sul pretendiam invadir São Paulo, demandar o Rio de Janeiro e depor o grande Presidente Washington Luís.
O Quartel General era toda vibração patriótica e suas dependências se apinhavam de oficiais e praças inativos, possuídos de grande entusiasmo e orgulhosos de poderem prestar mais um serviço à gloriosa Milícia Paulista.
Muitos envergavam ainda uniformes fora de moda mas todos se mostravam garbosos e varonis, trazendo no peito o mesmo ardor combativo dos tempos passados, nas lutas por São Paulo e pelo Brasil. Empertigavam-se ao cruzarem os portões do Quartel, lembrando as glórias da tropa bandeirante, pressurosos em voltarem ao teatro das contendas.
Pedro Árbues, o primeiro deles, apesar da idade, ainda conservava aquele mesmo porte espartano do tempo da mocidade, quando se alistara no primeiro Corpo da então Brigada Policial, em fins do século 19.
Sua fé de ofício era das mais brilhantes,
pois em todos os postos e hierarquia prestara inestimáveis serviços, tanto nas
funções policiais, como em ações militares. Em 1912 comissionado pelo Governo
do Estado, foi estagiar em países da Europa, percorrendo a Itália, França e
Alemanha, onde aprimorou seus conhecimentos.
Depois de exercer o comando de várias
Unidades da Força, pede a reforma, em 1917, no mesmo primeiro Batalhão, onde há
3 décadas havia ingressado para a luminosa carreira. Não podia pensar que treze
anos após voltaria à caserna, atendendo a um imperativo da alma, pondo a
serviço da Pátria sua experiência e desassombro.
Esse velho soldado iria por um ponto
final em sua vida com um ato viril, estóico e heróico.
Apresentando-se pois, para mais esse
serviço à Nação, recebe a missão de barrar o avanço do inimigo que, transpondo
o limite com o Paraná, ameaçava as cidades de Iguape e Cananeia, do nosso
litoral Sul.
Recebe poucos homens para esta missão
tão grande e paupérrimo material bélico lhe é fornecido. Porém, para um soldado
de São Paulo isso não era empecilho para o cumprimento de um dever.
Segue para o local e escolhe o morro
de Itapetingui, perto de Cananeia para esperar o inimigo, pois este não
tardaria a chegar.
A 23 de outubro, uma tropa aguerrida,
bem armada e numerosa cerca os bravos soldados que lutam, desesperadamente, mas
não resiste ao adversário, que é mais forte e bem treinado.
Prestes ao assalto inimigo,
Pedro Árbues, sente-se sozinho, pois vê acabar a munição e, um a um, seus
comandados sucumbirem.
- RENDA-SE PAULISTA, GRITA A TROPA GAÚCHA.
- UM VELHO SOLDADO DA FORÇA PÚBLICA MORRE. NÃO SE ENTREGA -
responde.
Gasto o último cartucho de seu revólver,
transforma-o em projétil que lança sobre o invasor. Uma saraivada de balas põe
termo a essa resistência heróica, ceifando a vida de um bravo que, tombando,
manteve de pé e bem alta a honra do soldado paulista.
O próprio inimigo mostrou-se
emocionado, maravilhado com tanta bravura e, reconhecendo esse valor militar
imenso, dá-lhe sepultamento e lhe presta as honras de estilo.
Em 1934 uma Comissão de Oficiais vai a
Itapetingui e traz para São Paulo seus despojos que, depois de reverenciados
pelas mais altas autoridades civis e militares e pelo povo paulista, estão hoje
inumados no Cemitério São Paulo, ao lado de outros bravos da milícia de
Piratininga.
A 25 de agosto de 1938, o coronel Mário
Xavier, do Exército, Comandante Geral da Força, ao inaugurar, no Salão Nobre do
Quartel General, o retrato do coronel Pedro Árbues Rodrigues Xavier, assim se
expressa:
''Inaugura-se nesta galeria o retrato de um
bravo militar. Nenhum outro dia, senão o de hoje, consagrado ao soldado
brasileiro, seria melhor para comemorar a vida nobre e o feito histórico de
Pedro Árbues, Coronel da Força Pública do Estado de São Paulo, tombado no campo
da honra no estrito cumprimento do dever".
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