Boa leitura!

quarta-feira, 13 de maio de 2015

2.ª GUERRA MUNDIAL

A 8 de maio de 1945 terminou a
Segunda Grande Guerra Mundial,
há setenta anos portanto...



Na capitulação de 1918, derrotada militarmente na 1.ª Grande Guerra, humilhada, perdendo na Europa a Alsácia-Lorena e a Prússia Oriental e também despojada de suas possessões ultramarinas, a região industrial do Reno ocupada, suas forças armadas reduzidas ao mínimo, obrigada a pagar altas indenizações, sua moeda em colapso, desemprego em massa, assim estava a Alemanha, quando Adolf Hitler apareceu no cenário político.

Falando da opressão dos vencedores, grandeza nacional, superioridade da raça ariana, denunciando os judeus e os comunistas, Hitler fundou o Partido Nazista, capitalizando o orgulho ferido de seus compatriotas.

Rearmando de forma espantosa suas forças armadas, já em 1936 expulsou os aliados do Reno. Aliando-se a Mussolini, o eixo Roma-Berlim formado, Alemanha e Itália mandaram suas tropas para ajudar Francisco Franco na Guerra Espanhola, esse ato constituindo a oportunidade para testar suas novas armas e uma nova estratégia, a guerra de movimento.

Hitler precisava de espaço vital para tornar a Alemanha a primeira potência mundial. Avançou então contra a Áustria e Checoslováquia em 1938 e, quando suas forças invadiram a Polônia no ano seguinte, França e Inglaterra protestaram, irrompendo a 1.º de setembro a 2.ª Grande Guerra Mundial.

Alemanha e Itália se uniram ao Japão, formando as forças do Eixo Roma-Berlim-Tóquio uma poderosa máquina de guerra para a dominação do mundo.

Apesar dos êxitos iniciais, essas três nações totalitárias acabaram derrotadas em 1945, depois de muita carnificina e devastação, pelas forças dos países democráticos, entre estes o Brasil.

O governo brasileiro, nos primeiros anos da conflagração, manteve-se neutro, numa posição de equilíbrio, entre as grandes potências em conflito, segundo a política externa de Getúlio Vargas, acusado muitas vezes de germanófilo.

Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1941, sofrendo pressão das Nações Aliadas, o nosso governo rompeu relações com a Alemanha e a Itália, no começo de 1942 e, em agosto desse ano, em conseqüência do torpedeamento de nossos navios mercantes por submarinos alemães, foi declarado estado de guerra contra aqueles dois países e mais tarde também ao Japão.

A 23 de novembro de 1943 foi criada a Força Expedicionária Brasileira, com o efetivo de 25.334 homens, comandada pelo General João Baptista Mascarenhas de Morais. Depois de muitos preparativos, os Expedicionários do Brasil foram transportados para a Itália, tendo sido o primeiro escalão embarcado a 2 de julho de 1944, subordinando-se ao 5.º Exército dos Estados Unidos.

Juntamente com a FEB seguiu o Grupo de Caça, esquadrão aéreo composto de 442 homens e 28 aviões P-47 Thunderbolt.

Demonstraram os nossos pracinhas o valor do soldado brasileiro nos campos da Itália, vitoriosos nas batalhas de Montesi, Castelnuovo di Garfagnana, Monte Castelo, Vale do Pó. Em Fornovo rendeu-se a 28 de abril a 148.ª Divisão Alemã, sendo aprisionados 14.779 soldados inimigos.

Durante o conflito, nossa Polícia Militar participou, ativa e eficientemente, em duas frentes:

Interna – em postos de vigilância no Parque Industrial de São Paulo, alto da serra, represas da Light, no litoral, em zona de concentração de imigrantes dos países inimigos e em guardas de navios e de presos estrangeiros, a cargo da Força Pública.

Externa – na Itália com um efetivo de setenta e nove homens da Guarda Civil (*), para a missão de Polícia Militar, integrado à Força Expedicionária Brasileira. Esse pelotão deu inicio à Polícia do Exército, (PE).

quarta-feira, 15 de abril de 2015

AS NEVES DO KILIMANJARO

Kilimanjaro é a maior montanha
da África, com 7.000 de altura,
situada na Tanzânia, 
a leste do Continente


Na deposição de Jango Goulart, em 1964, eu estava no Comando Interino do 3º BC, na bela cidade de Ribeirão Preto. O dia 31 de março foi de alegria geral, as Forças Armadas elogiadas pela família brasileira, pois elas tinham vencido o mal, frustrando as intenções do Presidente Jango, que era jogar o Brasil para o regime de esquerda, avesso à índole das nossas gentes.

A ação heroica dos militares e do povo foi batizada como A Revolução Redentora de 31 de março, data comemorada por muitos anos em solenidades cívicas e militares mas infelizmente foi proibida, se não me engano, pelo Presidente Lula.

Deixemos a história de lado e falemos das Neves do Kilimanjaro, o tema destes escritos.

Residente em Campinas, pouca oportunidade tinha para a família, dado às contínuas prontidões, devidas àquele período turbulento de nossa Pátria (façamos justiça a Jango pois, com a sua fuga para o Uruguai, ele teria evitado uma possível guerra civil entre irmãos).

Num fim de semana, o país já pacificado, o General CastelLo Branco timoneiro da Nação, estava eu na Terra das Andorinhas, no feliz convívio com meus queridos, quando meu filho Pedrinho, de 15 anos, falou-me das Neves do Kilimanjaro, famoso filme que estava passando em um dos cinemas da cidade. Fomos assisti-lo.

Aconteceu que a Casa de Espetáculos estava lotada, todos os lugares ocupados. Vagamos pelo salão todo e nada, nada de assentos vagos. Foi quando divisei, o filme já em andamento, duas cadeiras revestidas de pano branco com a inscrição “Polícia”.

Raciocinei ... sou Major da Força Pública, minha Corporação policiando todo o Estado, então não titubiei, sentamos naquelas alvas e macias poltronas.

Não demorou muito, um lanterninha apareceu solicitando a nossa saída. Expliquei-lhe as minhas razões.

Depois de 10 minutos, um guarda civil se aproximou e, delicadamente, pediu-nos que deixássemos os lugares; mostrei-lhe minha identidade e ele, saudando-me militarmente, se retirou.

Algum tempo depois aproximou-se, arrogante, o gerente do cinema, intimando-nos deixar o local, com a ameaça de chamar a Polícia. Repliquei veementemente! 

As Neves continuavam a deslizar no telão e nós, meu filho e eu, nada de entendermos o que era aquele Kilimanjaro, preocupados com este novo filme em que éramos atores.

Meia hora de calma, eis que as luzes se acenderam, a rodada do filme parou e adentraram ao salão o Delegado, o gerente e um pelotão de Choque do 8.º Batalhão.

O Comandante Tenente Sendim me reconheceu, filho que era do Coronel Miguel Melchiades Sendim, querido colega da Turma de Aspirantes de 1944, a primeira a se formar no Barro Branco.

Uma voz de comando ecoou no salão... Pelotão Sentido! O Tenente Sendim, em seguida apresentou-se, obediente ao nosso regime castrense.

Depois dos cumprimentos, esclareci as razões do meu procedimentos ao Delegado que, dirigindo-se ao gerente do cinema, censurou-o por ter autorizado a venda de mais bilhetes do que os assentos e, entonando sua voz esclareceu que, em situações idênticas, emergenciais, as poltronas brancas poderiam ser usadas pelos dignos Oficiais da Milícia Paulista. O gerente sumiu de cena.

A convite da autoridade policial, saímos para o cafezinho campineiro, a plateia toda, atônita e curiosa, nos acompanhando. O Pelotão formado à frente do cinema, o Tenente Sendim novamente me saudou militarmente com a voz firme de comando: Pelotão Sentido!...

Finalizando, quero explicar aos queridos leitores o porquê desta narração ocorrida há mais de 50 anos.

Convidado pelo Diretor de Ensino da Academia de Polícia Militar do Barro Branco proferi, em começo de março próximo passado, uma palestra sobre a Aviação Militar da Força Pública (1913-1932) para os cadetes do primeiro ano daquela notável Casa de Ensino. Terminada a palestra, muitos deles solicitaram permissão para uma foto com o velho mestre. Senti-me feliz, orgulhoso com aquela demonstração de carinho dos jovens de hoje, futuros comandantes do amanhã da nossa querida Polícia Militar.

Um deles era o cadete Sendim, neto do Coronel Miguel Melchiades Sendim pai daquele Tenente que me salvou da “guerra”do Kilimanjaro em Campinas.

Confesso que já tive oportunidade, várias vezes, de assistir a esse filme famoso, mas tenho medo do reencontro com o humilde lanterninha, o disciplinado guarda civil, o simpático delegado e o arrogante gerente...

quarta-feira, 25 de março de 2015

CURIOSIDADES

- De 24 para 25 de dezembro de 1924, o 2° Batalhão, então em operações de guerra no Estado do Paraná, tomou parte no combate de “Rocinha”. Seus elementos receberam nesse dia, como alimentação, unicamente uma colher de açúcar (manhã) e uma caneca de café (à noite). Depois, somente no dia 25, às 2 horas da tarde, é que lhes foi distribuído o almoço, composto de feijão e carne seca – Que Natal!!!;


- O Cel. João Negrão, como tenente, integrou a primeira equipe de aviadores brasileiros que atravessou o Atlântico Sul, no Hidroavião “JAHU”, em 1927;


- A nossa Polícia Militar é detentora do recorde de cinco vitórias na corrida de São Silvestre;


- A Caixa Beneficente foi a primeira organização a praticar a previdência social no Brasil;


- A Escola de Educação Física da Polícia Militar é a terceira na América do Sul (depois do Chile e Argentina) e a pioneira no Brasil;


- O Pelotão de Escolta da Polícia Militar, conhecido como a Escolta do Governador, além de suas funções normais, participa também de competições esportivas, como corridas e MotoCross. Uma curiosidade dessas competições é a chamada: “Curva do Sargento” no Autódromo de Intergagos, nome decorrente de uma queda que ali sofreu, em 1952, o Sargento Paulo Sebastião, integrante do Pelotão de Escolta, durante a prova de 24 horas de motocicletas.



COLÉGIO MILITAR 



No começo de 1978, tivemos a alegria e o orgulho de assistir à inauguração do Colégio Militar da PM, obra dignificante, inaugurado pelo Exmo. Sr. Cel. Comandante Geral Arnaldo Bastos de Carvalho Braga.

A objetivação desse extraordinário empreendimento se deveu a toda uma equipe, liderada pelos coronéis Hélio Guaycuru de Carvalho, Jonas Flores Ribeiro e Bruno Éboni Bello, que, naturalmente, deram realidade a um sonho antigo da Corporação.

À guisa de curiosidade, transcrevemos um artigo do então Capitão Francisco Vieira Fonseca, publicado na revista Militia de 1948:

“A criação do Colégio Estadual “Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar”.

“Fazendo destas colunas a nossa pequena tribuna, vimos apresentar à consideração dos senhores deputados da Assembleia Legislativa do Estado, e especialmente, ao camarada Capitão Dr. José Artur da Mota Bicudo nosso representante naquela Casa, uma sugestão prática para apresentação, discussão e aprovação de uma lei, visando criar o Colégio Estadual “Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar”.

A justificação e artigos do projeto em apreço, dispensam quaisquer comentários em torno da justiça que se fará às famílias dos milicianos e funcionários civis do Estado, que forem sacrificados em serviço público.

É necessário oferecer aos filhos dos que servem à Força Pública, à Guarda Civil e à Guarda Noturna, ensino secundário suficiente para habilitação ao concurso de ingresso às escolas formadoras de quadros dirigentes dessas corporações, bem como garantir o mesmo ensino aos filhos dos que forem sacrificados em serviço público.

As entidades de classe, cujos elementos serão beneficiados com a execução da medida proposta e, especialmente, ao Clube Militar da Força Pública, solicitamos ventilar o assunto através de debates em suas sedes, enviando-nos as suas sugestões aditivas ou substitutivas, no sentido de aprimoramento do projeto. E, aos senhores deputados, solicitamos seu interesse por ele, já que tanto têm demonstrado em prol do amparo às famílias dos servidores públicos e à causa educacional em nossa terra”.

Trinta anos se passaram para a sublimação de um sonho. Parabéns aos idealistas de ontem e de hoje.



A CARREIRA



O primeiro Comandante Geral da Milícia, oriundo de suas próprias fileiras, foi o Tenente Coronel Guilherme José do Nascimento, nomeado interinamente em 13 de dezembro de 1889.

Antes, desde a criação da Guarda Municipal Permanente, em 1831, o Comandante era escolhido entre os oficiais superiores do Exército, ou Capitão com a graduação de Major; Os Comandantes de Companhia e ajudantes eram escolhidos, também, das quatro armas do E.N., ou dentre os oficiais honorários da Guarda Municipal. Eram requisitados pelo Presidente da Província, conforme Lei n°. 236, de 27 de fevereiro de 1844.

Com o passar dos anos, os elementos da Corporação foram conquistando o direito natural e justo de galgarem os postos do oficialato. Em 1852, pela Lei n°. 432, ficou estabelecido que poderiam ser nomeados para lugares de quartel-mestre, secretário, 3°.s Comandantes de Companhia (Alferes), os oficiais inferiores dos Permanentes, de bom comportamento e serviços distinguidos. No ano seguinte, a Lei n°. 452 autorizava a promoção dos 3°.s comandantes (alferes) a 2.°s comandantes (tenentes) e destes a 1.°s comandantes de companhia (capitães), sendo que o interstício seria de dois anos, elevado depois para três.

Assim, a carreira de oficial da PM atingia o posto de Capitão Comandante de Cia., ficando reservado ao Exército o suprimento dos altos postos, que eram os de Comandante do Corpo, de Ajudante e o de Mandante ou Fiscal.

Em 1881, nova conquista, pois nossos oficiais poderiam concorrer aos lugares de Fiscal e Ajudante, e somente o de Comandante de Corpo seria do Exército.

Em 1887, pelo seu Regulamento, o Corpo Policial Permanente seria, de preferência, comandado por oficial do E.N., o que não excluía a possibilidade de ser nomeado um oficial da própria milícia.

Essa possibilidade de um oficial nosso galgar todos os postos de hierarquia, até o de Comandante, foi homologada pela Lei n°. 27, de 10 de abril de 1888, entretanto, a Lei n°. 102, de 9 de abril de 1889, revogou em parte aquela, determinando que: ...”Para Comandante do Corpo Policial Permanente só poderá servir oficial do Exército, efetivo ou reformado”.

Com o advento da República, um dos primeiros atos do Governo do Estado foi a substituição do Comandante de Corpo, na ocasião, o Capitão Reformado do Exército, Henrique Cândido de Araújo Macedo (comissionado como Tenente Coronel), pelo Tenente Coronel Guilherme José do Nascimento, da própria milícia.

Estava derrubada a barreira que impedia o acesso do nosso soldado ao mais alto posto da carreira. Desde então, até os nossos dias, nada mais impede que o mais modesto soldado possa galgar todos os postos da hierarquia militar e chegar a Coronel Comandante Geral da Polícia Militar de São Paulo.



À MARGEM



Estas duas palavras foram, em fins do século passado, o terror dos oficiais da nossa PM. Mesmo depois de proclamada a República, os direitos do oficial eram poucos e mesmo assim, burlados pela expressão tenebrosa... `A Margem.

Ficar o oficial à margem era a perda total de todas as regalias, pois ficaria sem vencimentos e sem uniforme. Excluído!!! À guisa de consolação, o Governo mandava pagar-lhe três meses de vencimentos.

A aplicação da medida era simples. Ao organizar a Lei Orçamentária para cada ano, o Poder Executivo estava já de posse dos nomes dos oficiais que, por qualquer motivo, haviam caído em desgraça. Diminuía, então, uns tantos postos na Lei de organização, atingindo, portanto, aqueles coitados que não eram da “panelinha”, sujeitos às reviravoltas da política ou ao capricho dos poderosos do momento.

Um dos artigos do Regulamento de 1887 estabelecia: “O Presidente da Província poderá demitir o comandante, fiscal, cirurgião e outros oficiais do Corpo Policial Permanente, quando entender que assim o exige o bem do serviço público”.

Em 1892, a Lei n°. 97-A trouxe alguma proteção ao nosso oficial, pois estabelecia que aqueles que tivessem mais de cinco anos de serviço, só perderiam seus postos por sentença condenatória há mais de um ano, ou por mau comportamento provado em Conselho de Disciplina. Esse dispositivo foi revogado em 1896 restabelecido no ano seguinte (Lei n°. 437) e confirmado pela Lei n°. 916-B, de dois de agosto de 1904.

O oficial que ficava, pois, à margem, além de perder os vencimentos e os uniformes, também não podia entrar nos quartéis, havendo casos de o oficial apresentar-se para o serviço e ser surpreendido pela alarmante notícia. Passava então, pelo vexame de ter que se vestir à paisana e sair do quartel sob os olhares da tropa que o via despojado de todos os privilégios. Ia para a rua da amargura!

Esse “À MARGEM” vigorou até 1900 e, já na fixação para 1901, as leis protegiam, como até os dias de hoje, a carreira do oficial e sua estabilidade.

segunda-feira, 16 de março de 2015

O ECLÍPSE DO SOL

Na vida militar, aprendemos que ordens devem ser dadas sempre por escrito. As verbais são proibidas, por que chegam sempre ao destino, a maioria das vezes, completamente deturpadas.

Para enfatizar esse preceito regulamentar, o nosso instrutor, na Academia do Barro Branco dava o seguinte exemplo: 

- O Capitão Comandante da Companhia chamou o 1.º Sargento. e lhe deu a seguinte ordem:

- Amanhã haverá o eclipse do sol. Reúna a Companhia, em frente ao alojamento, que eu vou explicar aos soldados esse fenômeno que acontece periodicamente. Como a aula seguinte é de jogos, todos devem formar com o uniforme de educação física. Se chover, explicarei esse raro fenômeno dentro do alojamento.

- O Primeiro Sargento chama o Terceiro Sargento instrutor e lhe diz:

- Amanhã, o Senhor Capitão vai fazer o eclipse do sol. Se chover, o eclipse será feito dentro do alojamento.

- Do Terceiro Sargento instrutor ao Cabo de dia:

- Amanhã haverá o eclipse do sol no alojamento. O Capitão vai explicar esse fenômeno com o uniforme de educação física.

- Do Cabo de dia ao Soldado:

- Amanhã, haverá o eclipse do Capitão no alojamento, se chover o fenômeno será de uniforme de educação física...

quinta-feira, 5 de março de 2015

DOIS HOMENS ILUSTRES

Na década de 40, a VASP foi recordista em desastres com seus trimotores, na ponte aérea Rio-São Paulo.

Na ocasião era chiquérrimo os noivos passarem a lua de mel na cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, nossa antiga Capital Federal. Eles cumpriam o roteiro obrigatório, durante o dia o banho na praia de Copacabana e as subidas ao Pão de Açúcar e ao Corcovado e à noite o roteiro era outro...

Devido às constantes tragédias, na ida ou na volta, o anedotário popular insinuava aos padres mudarem a frase “até que a morte os separe” para “até que a Vasp os separe”.

Em 1943 uma aeronave vaspeana projetou-se nas águas da Guanabara, morrendo todos, tripulantes e passageiros. Entre os mortos duas figuras ilustres:

O Arcebispo de São Paulo Dom José Gaspar de Afonseca e Silva e o empresário e jornalista Dr. Cásper Líbero. Dom José Gaspar, mineiro de Araxá foi Bispo e Arcebispo de São Paulo. Possuía os cursos Universitário, Filosofia e Teologia, graduando-se também em Direito Canônico em Roma. Foi nomeado Arcebispo em nosso Estado em 29 de julho de 1939, aos 38 anos de idade.

O Dr. Cásper Líbero era natural de Bragança Paulista, grande jornalista. O seu legado é hoje a notável Fundação Cásper Líbero, abrigando o jornal, a rádio e a televisão A Gazeta e a Faculdade que tem o seu nome.

O velório de Dom Gaspar foi na nave da Igreja de Santa Efigênia e do jornalista Cásper Líbero no salão nobre da antiga Gazeta (Rua da Conceição, hoje Rua Cásper Líbero). Os dois velórios, portanto eram próximos, quase vizinhos.

Coube à Força Pública organizar a guarda fúnebre do Arcebispo Dom José Gaspar, em respeito a sua hierarquia eclesiástica. Durante 24 horas os cadetes se revezavam para a honrosa missão, de 15 em 15 minutos, dois à cabeceira e dois aos pés do ilustre morto, carregando seus fuzis com os canos para baixo, em rigorosa posição de sentido, a respiração lenta e reduzido o piscar de olhos, atentos à ronda oficial.

Numa das rendições, um dos cadetes tinha o olho esquerdo com forte grau de estrabismo, causando ao colega de frente um mal estar terrível naquele olho a olho; estava aflito e angustiado, e da angústia veio a explosão, jogou o fuzil e, como um doido, correu pela nave em direção à rua (era madrugada, apenas algumas beatas velavam Dom Gaspar).

Foi energicamente detido e, depois de alguns minutos, já calmo, procurou justificar ao tenente sua falta grave... desculpe-me senhor, eu não resisti olhando aquele olho meio torto, acho que até o senhor no meu lugar não aguentaria... o jovem cadete não pode concluir a frase, porque teve que socorrer seu superior que, curvado e cambaleante, quase apoplético, dava gargalhadas às escâncaras...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

REVOLUÇÃO DE MARÇO DE 64

O dia 31 de março de 1964 marcou a data da Revolução Redentora, na qual o povo ordeiro do Brasil, em comunhão com as Forças Armadas, depôs o Chefe da Nação Dr. João Goulart.

João Goulart, homem de esquerda, quando Ministro de Trabalho do Governo Getúlio Vargas, já havia demonstrado suas tendências ideológicas, incentivando e mesmo promovendo agitações sucessivas e freqüentes nos meios sindicais, com ampla infiltração no organismo daquele Ministério, até em pontos chaves de sua administração, de ativos e conhecidos agentes de comunismo internacional, além de incontáveis elementos esquerdistas, que desejavam a sovietização do Brasil.

Nosso país, com o beneplácito do Presidente Goulart, enveredava por caminhos tortuosos, para a implantação de uma ideologia, despida do caráter democrático e da moral cristã, apanágios do povo brasileiro.

A grande advertência desse perigo foi MARCHA DA FAMÍLIA COM DEUS PELA LIBERDADE, realizada em São Paulo, despertando a Nação que, com presteza, se uniu em torno dos mais caros e profundos sentimentos, conseguindo com as Forças Armadas a deposição do Presidente.

Revigorado o poder do Congresso, assumiu a Presidência da Nação o General Humberto Alencar Castelo Branco, que pôs ordem no País, fazendo retornar os rumos democráticos e o roteiro do seu grande destino no concerto das demais nações do mundo.

Os homens de esquerda reagiram e várias organizações subversivas surgiram, lutando na clandestinidade contra os militares no Governo, recrudescendo a luta,1 com a decretação “Ato Institucional n.º 5” – AI5.

No final do ano de 1969, a organização comunista-revolucionária Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR , chefiada por Carlos Lamarca, estabeleceu um foco guerrilheiro na região do Vale do Ribeira, então inóspita e coberta por extensa floresta. Ali os guerrilheiros estabeleceram bases de treinamento que serviriam para formar novos guerrilheiros, destinados à luta armada para mudança do regime no país.

O governo federal, ao ter informações sobre a existência do foco, concentrou tropas na região para capturar os guerrilheiros e restabelecer a ordem pública. As operações legais tiveram início em 22 de abril de 1970, sob comando do Exército Brasileiro. Desde o primeiro momento o efetivo da 7.ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), sediada em Registro, integrou o dispositivo militar, colaborando nas ações para supressão do foco guerrilheiro, em exaustiva atividade de patrulhas na floresta e controle nas estradas e localidades. Comandava esta companhia da Polícia Militar o Capitão PM Francisco Expedito de Oliveira e Silva.

A campanha se afigurava dificílima pela natureza e extensão do terreno, vindo se somar às forças legais um destacamento da Aeronáutica, fornecendo suporte aéreo com esquadrilhas de aviões e helicópteros. A Marinha integrou o dispositivo com tropas de fuzileiros navais patrulhando os rios da região.

O reforço da Polícia Militar veio com um pelotão do 6.º Batalhão Policial e, pouco depois, com mais 5 oficiais e 80 praças do 1.º Batalhão Policial Tobias de Aguiar, os quais passaram a compor o Grupamento Policial Militar da Operação (GPMOR), sob comando do Major PM José Fragoso. O número total de tropas militares chegou a cerca de 1.500 homens de todas as forças.

No início de maio, a Operação foi suspensa, iniciando-se a desmobilização do dispositivo legal. No dia 8 o 3.º Sargento PM Antonio Martins, comandante do Destacamento PM de Eldorado, finalmente conseguiu localizar o grupo central dos guerrilheiros em trânsito pela cidade. Ao tentar capturá-los os policiais militares foram recebidos a tiros, travando-se combate que resultou em ferimentos em 3 praças e 1 guerrilheiro, os demais escaparam para Sete Barras.

O Comandante da 7.ª CIPM lançou de imediato para Sete Barras um pelotão misto composto de elementos da 7.ª CIPM e 1.º BP, num total de 25 praças, sob comando do 2.º Tenente PM Alberto Mendes Júnior e 2.º Tenente PM José Correia Neto. Esta tropa, em deslocamento motorizado, caiu em emboscada armada pelos guerrilheiros que, armados com fuzis automáticos furtados do Exército, tinham forte superioridade bélica sobre a tropa da Polícia Militar, armada de revólveres e fuzis de repetição. Neste segundo combate ficaram feridos 15 policiais militares.

Com grande número de feridos, a tropa da Polícia Militar já não tinha mais condição de prosseguir no combate. Superada a resistência, os guerrilheiros parlamentaram, permitindo o socorro dos feridos, desde que os demais policiais militares permanecessem como prisioneiros. Neste momento o Tenente Mendes Júnior adiantou-se e, oferecendo-se pelos seus homens, conseguiu a libertação de todo o efetivo capturado, permanecendo como refém dos guerrilheiros.

Graças ao oferecimento heróico de Mendes Júnior todos os policiais militares foram liberados e conduzidos ao hospital de Registro, o que salvou várias vidas.

Em São Paulo, ainda na noite do dia 8, o comando da Polícia Militar mobilizou mais uma Companhia do 1.º BP que na manhã seguinte seguiu para Registro, reforçando o GPMOR, agora sob comando do Major PM Roberto Salgado, com a missão de libertar o Tenente Mendes Júnior. Esta Unidade chegou a contar com mais de 150 policiais militares, com apoio de saúde, logística e transporte.

Com o cerco das forças legais aproximando-se, os guerrilheiros, temendo suas capturas, decidiram livrar-se do Tenente Mendes Júnior que mantinham como refém. Mendes Júnior, após passar dois dias sem alimentação e obrigado a carregar os materiais dos seus captores mata adentro, já exausto, foi friamente assassinado a golpes de coronhadas de fuzil na cabeça pelos guerrilheiros, que abandonaram seu corpo desfigurado na floresta, completando o seu martírio. Mendes Júnior recebeu a morte mais cruel, para que seus comandados pudessem viver.

Posteriormente a guerrilha foi suprimida, mas o sacrifício e o martírio de Mendes Júnior serviram como símbolo da dedicação e abnegação do oficial, mobilizando a sociedade contra a barbárie da guerrilha. 

Como vimos, deposto Jango Goulart em 31 de março 1964 assumiu a presidência da República o General Castelo Branco (1964/67), que pôs ordem na Casa. Seguem as presidências do General Costa e Silva (1967/69), Garrastazu Médici (1969/74), Ernesto Geisel (1974/79) e João Batista Figueiredo (1979/85). 

Nesses 21 anos houve fecundas realizações, como a ponte Rio-Niterói, a Hidrelétrica do Itaipú, o desbravamento da Amazônia que evitou a cobiça de outras Nações que almejavam a sua internacionalização. Houve o período do Milagre Brasileiro, quando a nossa balança comercial superou todos os recordes. Perdoe-me General Costa e Silva, o senhor não devia ter fechado o Parlamento Brasileiro em 1968. 

Ao findar o governo do General Figueiredo, foi editada a LEI DA ANISTIA, bem estruturada, no sentido de evitar possíveis e futuras reações, jogando novamente irmãos contra irmãos. 

Durante muitos anos as nossas Forças Armadas comemoravam o dia 31 de março, a Revolução Redentora, como sendo um marco glorioso que elas, atentas às aspirações soberanas da sociedade brasileira, deram à nossa Pátria o rumo da Democracia, derrotando as forças do mal, tendentes a implantar o comunismo em nossa terra. Essas comemorações, infelizmente foram suspensas... 

Passam os tempos, eis que a Presidenta Dilma Roussef nomeia a Comissão da Verdade, desobedecendo a Lei da Anistia do Presidente Figueiredo. O relatório dessa comissão enfatiza somente a parte que lhe interessa desconhecendo as barbaridades praticadas pelos Revolucionários da época, conhecidos como os Terroristas. 

Um dos absurdos dessa Comissão é propor, ao nosso Poder Legislativo, a extinção ou desmilitarização das Polícias Militares do Brasil. 

Oportuno é o artigo do Coronel Veterano Ricardo Jacob, na revista Clarinadas da Tabatinguera, que autorizou reproduzi-lo em nosso blog: ei-lo.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A AÇÃO TÁTICA DE JOÃO CABANAS NO EIXO DA MOGIANA EM 1924




“Nove mapas ilustram a situação

tática e estratégica na evolução

da luta.O leitor atento às manobras

focalizadas nos mapas, certamente

aprenderá um pouco da arte da guera”.



           Este livro, que tenho a honra e apresentar, chegou para um resgate da História, para redescobrir um personagem, um mito, um herói ou bandido, que foi João Cabanas, Tenente da antiga Força Pública na Revolução de São Paulo.

           Sua fama perdurou por muito tempo,varou anos e anos mas, com o suceder de gerações, foi sendo esquecido e, nos dias de hoje, apenas os homens de cultura sabem quem foi o bravo, arrojado, engenhoso, também estigmatizado como sanguinário, vândalo e bandoleiro.

           Os adjetivos acima copiei-os deste livro A AÇÃO TÁTICA DE JOÃO CABANAS NO EIXO DA MOGIANA EM 1924, de autoria do acadêmico, emérito historiador da nossa heróica milícia, o Major  Hélio Tenório dos Santos.

          Chegou-nos essa obra em boa hora, porque ela acrescenta algo mais, soberbamente valioso, para somar à saga do Tenente João Cabanas, herói de tantas façanhas e loucuras.

           O agudo sentido do autor, na pesquisa inteligente, nos traz à luz importantes fatos adormecidos no tempo e no espaço, que somente a sua lupa investigatória podia descobrir, vasculhando alfarrábios, jornais amarelecidos, livrões poeirentos, empilhados em porões de bibliotecas de nossos quartéis, arquitetura de seteiras.

           Uma simples notícia de que Cabanas havias passado a noite, de 4 para 5 de julho, com uma namorada, aguçou a curiosidade de Hélio Tenório, que procurou a verdade, descobrindo que a dama misteriosa era Olga Navarro, imigrante italiana, artista de cinema e teatro. Descobriu também que Olga Navarro participou do filme TREM DA MORTE, no qual ela era a mocinha, inspirada na atuação de Cabanas, seu grande herói e amante.
 
           No livro A COLUMNA DA MORTE (pág. 31), Cabanas revela, após a ocupação do Palácio dos Campos Elísios, que: “fui até as trincheiras que em frente dele haviam levantado os governistas. Aí encontrei um banco e pela falta de alimentos descansei alguns minutos que eu não esqueço; tive ante mim uma visão de estímulo e carinho...”

           A indagação de Hélio Tenório  neste seu livro -  quem seria essa visão de carinho? Seria Olga Navarro, saudosa, sedenta de amor pelo seu grande Herói?

           O brilhante autor também nos apresenta Cabanas, não como um simples tenente cumpridor de ordens, mas sim um comandante de vontade própria, resolvendo de imediato todas as situações críticas de uma guerrilha. A tática das pequenas unidades aprendeu com os instrutores da Missão Militar Francesa, mas a visão global, estratégica podemos dizer, brotou do seu raciocínio rápido e seguro.

           Muitos exemplos poderíamos citar das suas atuações e decisões mas deixemos que o leitor se delicie com o conteúdo da obra histórica que o autor nos presenteia.

           Não fora Cabanas, manobrando estrategicamente, a Revolução findaria nas cidades de Campinas ou em Bauru.

           Com poucos homens, embarcando em vagões ferroviários dezenas de troncos de madeira encenando canhões, centenas de caixões “contendo” metralhadoras, granadas e munições, todos cobertos de lona e mais ainda o tropel dos seus soldados cantando canções populares, ele espelhava o terror e o pânico. Com isso, muitas tropas regulares legalistas, comandadas por oficiais de patente, fugiam apavoradas, pois as notícias chegadas pelos telégrafos das estações apontavam 5.000 revolucionários e na verdade os seus homens eram apenas 50, armados de fuzis.

           A ação tática de João Cabanas no eixo da Mogiana (título do livro) frustrou o avanço dos legalistas mineiros para Mogim Mirim e Campinas, como também a tomada desta região brecou os governistas do sul, que já haviam conquistado Sorocaba. Os governistas fugiram com o grito: Cabanas vem aí!

           Essa guerra psicológica permitiu que os revolucionários de 24, comandados pelo General Isidoro Dias Lopes e Major Miguel Costa, em trens da Paulista e Sorocabana, atingissem o Rio Paraná, descendo até Foz do Iguaçu, ponto de partida da Divisão Revolucionária, que percorreu 30.000 quilômetros pelos afastados rincões da Pátria, perseguida pelos legalistas, realizando a maior marcha militar do planeta que suplanta Alexandre o Grande e os Generais Hamilcar e Aníbal, heróis de Cartago.

           Nove mapas ilustram as situações táticas e estratégicas na evolução da luta. O leitor atento às manobras, focalizadas nos mapas, certamente aprenderá um pouco da arte da guerra.

           O autor, Major Hélio Tenório dos Santos, já é uma referência na Corporação. É titular da cadeira “General Miguel Costa” da Academia de História Militar Terrestre do Brasil. Viajou diversas vezes pela Europa, em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Suíça e Inglaterra, estudando as fortificações medievais, as táticas e os campos de batalha de Napoleão e das guerras mundiais. Na Ásia estudou as guerrilhas do Vietnã, Camboja, Laos, Malásia e Indonésia. Por dois anos, cumprindo honrosa missão das forças de paz da ONU, esteve no Timor Leste, ajudando na formação do jovem país, combatido pelos indonésios e milícias timorenses.

           Um detalhe: o Major Hélio Tenório dos Santos é forte, inteligente, alto e magro. Cabanas também o era.





quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A REVOLTA DO MARINHEIRO JOÃO CÂNDIDO - 1910


Em novembro de 1910, quando Presidente da República o Marechal Hermes da Fonseca, uma parte da Marinha de Guerra sublevou-se, sob as ordens do Marinheiro João Cândido.

Os revoltosos dominaram por alguns dias a Baía de Guanabara e as instalações do porto do Rio de Janeiro, ameaçando bombardear a antiga Capital Federal.

Esse movimento rebelde passou à História como a Revolta do Marinheiro João Cândido ou a Revolta da Chibata, porque dentro das exigências que os marujos amotinados faziam, a principal era a abolição do castigo corporal que sofriam pelas transgressões disciplinares.
João Cândido, minutos antes da meia-noite de 22 de novembro, assumiu o comando do Encouraçado Minas Gerais, depois de, com seus homens, dominar o Oficial-de-quarto, o Segundo Tenente Álvaro da Mota e Silva, ferido gravemente com golpes de baioneta.

O Comandante do Encouraçado Minas Gerais, Capitão-de-Mar-e-Guerra João Batista das Neves – cuja chegada ao navio desencadearia a, rebelião vindo de um banquete realizado a bordo do Cruzador francês Duguay Trouin, procurando dominar a guarnição amotinada, lutou bravamente ao lado de alguns oficiais, morrendo a golpes de baioneta, juntamente com os Capitães-Tenentes José Cláudio da Silva Junior e Mario Carlos Lahmeyer.

Imediatamente, João Cândido intimou os Encouraçados São Paulo e Deodoro, que aderiram à causa sob a ameaça dos canhões do Minas Gerais; da guarnição do Encouraçado São Paulo, morreu o Primeiro Tenente Américo Sales Carvalho que reagiu frente aos amotinados.

A bordo do Cruzador Bahia, onde fermentaram os primeiros germes da insurreição, os revoltosos intimaram o Oficial-de-quarto, Primeiro Tenente Mario Alves de Souza, a abandonar o navio. Sozinho, não atendeu à intimação, sustentando luta contra mais de cem homens armados. Subjugado, o Bahia, sob o comando do Marinheiro de Primeira classe Francisco Dias Martins, assestou seus canhões contra a Capital; a guarnição rebelada exigia a abolição dos castigos corporais, a diminuição do trabalho e o aumento de vencimentos.

Depois de muito parlamentar, o governo do Marechal Hermes da Fonseca atendeu, por Decreto, às reivindicações, concedendo também a anistia.

Os espíritos serenaram somente a 9 de dezembro daquele ano de 1910, quando o Batalhão Naval da Ilha das Cobras e o Cruzador Rio Grande do Sul foram dominados.

A marujada sediciosa ameaçou o porto paulista de Santos, tendo o Chefe da Nação requisitado o concurso do governo de São Paulo, para frustrar qualquer tentativa de desembarque.

O Chefe do Executivo Bandeirante determinou ao Comando da Força Pública que fizesse seguir, já no primeiro dia da Revolta, àquela cidade litorânea, o 1.º Batalhão com a missão de barrar, a qualquer custo, as intenções dos sublevados.

O comandante do Batalhão, Tenente-Coronel Pedro Árbues Rodrigues Xavier (que na Revolução de 1930, seria o herói-mártir de Cananeia), foi nomeado Comandante Militar da Praça de Santos naqueles dias tumultuosos.

Regressou o Primeiro Batalhão depois de bem cumprida sua missão, pois escreveu mais uma página de glória nos anais do militarismo paulista, na defesa do Poder Constituído da Nação e do Estado.

Quanto ao Almirante Negro, o Marinheiro João Cândido, serenados os ânimos veio, poucos dias depois da anistia, a traição. Ele foi expulso da Marinha, junto com os líderes da Revolta, o que ocasionou reação entre os marinheiros mas, o movimento foi abortado, sofrendo os homens do mar violenta repressão, que culminou com dezenas de mortos e feridos e centenas de deportações. João Cândido foi novamente encarcerado com 18 companheiros, numa masmorra na Ilha das Cobras, de onde foi o único a sair vivo. Faleceu em 1969, aos 89 anos, de idade sem patente e na completa miséria. Há um movimento nacionalista, para inscrever o seu nome no livro dos heróis da Pátria.
                            


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

MEU CAPOTE SUMIU

Lá pelos anos de 1964, o Major Comandante Interino de um Batalhão do interior, ao examinar a pasta recheada de documentos para despacho, deparou com um processo de aposentadoria, ou melhor, de reforma, de um Cabo, que servira àquela OPM (Unidade Administrativa era o termo da época) por mais de 20 anos. 

Como de praxe, reuniram-se, no Gabinete do Comando, meia hora antes do término do expediente da tarde, além do Comandante da Companhia, o então Cap. Spanó, de saudosa memória, Oficiais e Praças da Sub-Unidade, para a homenagem a um servidor de comportamento exemplar, que havia prestado relevantes serviços às comunidades em que servira. 

Minutos antes, porém, examinando o processo de reforma, fixei meu olhar na fotografia do homenageado, achando-a familiar, com aquele toque de “esse cara eu conheço”. Não tive dúvidas, quando vi que o seu R.E. era próximo ao meu e neste instante a minha ficha caiu (o leitor amigo já descobriu que o Major Comandante era eu). 

É o Chaguinhas, falei comigo mesmo, recruta como eu, companheiro lotado na 3ª. Cia do Batalhão Escola Misto, adido ao Quartel de Sorocaba, nos idos de 1939, a Europa já envolvida na 2ª. Grande Guerra Mundial (1939-45). 

Éramos jovens sonhadores, abraçando a carreira na então Força Pública, empenhada no preparo de bons policiais para a segurança do Estado, preocupada também no preparo militar, obedecendo a orientação do Comandante Geral, Coronel do Exército e da Diretoria de Ensino, também composta de instrutores verde-oliva e a instrução era brava. 

Dezesseis horas e trinta minutos, eis que chega o grande momento da despedida, todos perfilados, Chaguinhas na posição rígida. O Sargento amanuense leu os pontos principais de seu assentamento (para o Oficial era Fé de Ofício), o Cap. Spanó proferiu belas palavras destacando passagens significativas e elogiosas de seu subordinado. 

Eu deveria falar por último, como recomenda a etiqueta, mas antecipei às palavras de Chaguinhas. Vou tentar reproduzir a minha fala:


           Meus amigos, quero render minhas homenagens ao meu colega Chaguinhas, recruta como eu na Cia. comandada pelo Cap. Lameirão em Sorocaba, durante todo o ano de 1939.
           Chaguinhas você era admirado por todos nós, pela sua alegria de viver, pela sua lealdade, espontaneidade, inteligência viva, contador de estórias e piadas, tiradas  repentistas e tantas outras qualidades...
           E fui falando, falando, embalado pela inspiração e saudade e num certo momento de minha saudação, lembrei-me de uma passagem que me marcou muito: 10 recrutas, inclusive Chaguinhas e eu, tivemos nossos capotes roubados e as nossa malas arrombadas. Fomos à presença de nosso comandante da Cia., que, nos recebeu bondosamente e relatamos a triste ocorrência. O Cap. Lameirão era muito religioso, portava na ocasião um rosário em suas mãos, tendo à frente um altar com várias imagens de santos. Confessou que custava a acreditar no relatado por nós, adiantando que poderia ser uma brincadeira de mau gosto e que logo os capotes apareceriam. Adiantou também que considerava todos os recrutas muito bonzinhos...
           De imediato, Chaguinhas aparteou e falou com firmeza: Sr. Capitão, aqui todos os recrutas são bonzinhos, mas o meu capote SUMIU!

           
Abreviei o meu discurso, resolvi parar, porque senti intensa emoção em Chaguinhas, os seus olhos marejados de lágrimas; ficou mudo, não conseguiu articular nenhuma palavra, fui ao seu encontro e num abraço saudoso de velhos companheiros, nossas túnicas se orvalharam.

Nunca mais tive notícias do Cb. Chagas. Não sei se ele ainda pertence à nave Terra ou se habita uma longínqua galáxia.

Minha intenção é terminar esta crônica, tentando indexá-la àquela frase incisiva de Chaguinhas, como a firmeza na verdade do Sânscrito SATIAGRAHA, fulcro da pregação de Mahatma Gandhi, operação meritória da Polícia Federal contra a máfia dos colarinhos brancos, os intocáveis.

Antes dessa ação, outras máfias também foram desmascaradas pela Polícia Federal, como a do Mensalão, dos Correios, do Banestado, dos Aloprados do Presidente, escândalos e roubos por toda a parte e, infelizmente, a morosidade dos Magistrados, que não arrematam, não condenam e acabam arquivando a firmeza na verdade.

Os jornais estampam uma declaração estranha de um corrupto intocável, que nas Instâncias Superiores do Judiciário, ele teria mais facilidade de ser absolvido, do que num juizado de 1ª. Instância.

A história nos conta que até 1930, na Republica Velha, havia muita corrupção eleitoral, até mortos votavam, mas havia moral, os homens, os políticos eram honestos.


sábado, 11 de outubro de 2014

VERSOS GUERREIROS

"Quando se sente bater
No peito heróica pancada
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer".


 Esses versos pertencem a um poema, da lavra do poeta Tobias Barreto, homenageando a libertação de Montevidéu, sendo adotados, na Revolução Constitucionalista de 1932, como uma Bandeira, incentivando a mocidade paulista, principalmente a classe acadêmica, a suspenderem os seus estudos e acorrerem ao chamamento da alma bandeirante, para defesa de um ideal, que era o retorno da Lei, violada, desde 1930, pelo ditador Getúlio Vargas.

Grande número de estudantes das Arcadas morreram pela causa paulista e aqueles versos guerreiros, do vate pernambucano, são o estribilho do vibrante hino do Centro Acadêmico “11 de Agosto”, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Muitos livros históricos reproduziram esses versos e, em monumentos e estátuas, erigidos no sagrado chão paulista, eles surgem, esculpidos muitas vezes em bronze, reverenciando a saga bandeirante e imortalizando os heróis, que tombaram em holocausto à Causa Constitucionalista.

Minha intenção é relacionar esses versos guerreiros com uma cidade, santuário ecológico, onde foi aberto o primeiro poço de petróleo na América do Sul, conhecida também como a Terra do Gigante que Dorme. Essa terra é pequena, mas encantadoramente bela.

Quando os mascates, no passado, com os seus carroções, puxados a mulas ou burros, desciam a Serra de Botucatu, por caminhos ou trilhas, levando, nos seus baús e canastras, uma infinidade de mercadorias, objetos e coisas, carentes no vasto interior de São Paulo, como sal, açúcar, tecidos, linhas, botões, agulhas, carretéis, espelhos, pó de arroz, águas de cheiro, pólvora, espingardas, garruchas, armas brancas, arreios, rédeas e freios, material de pesca, sementes, etc, etc, etc, para a venda ou trocas, normalmente eles estacionavam, para as refeições, num lugarejo ou patrimônio chamado Samambaia, à beira de um rio muito piscoso, conhecido como o Rio do Peixe.

Com o advento da República, Samambaia, já cidade, mudou o nome para Rio Bonito, conservando-o até 1923, quando, num terceiro batismo, chamou-se Bofete, nome oriundo da palavra buffet, que era um armário repleto de alimentos, enfim um guarda comidas, mas na época era chique os mascates falarem: “vamos abrir o buffet às margens daquele rio cheio de peixes”.

Natureza exuberante, Bofete é considerada cidade ecológica e o orgulho de seus filhos se detêm no fato histórico, narrado por Monteiro Lobato, em um de seus livros sobre o ouro negro, afirmando que foi no município de Bofete aberto o primeiro poço de petróleo na América do Sul.




Vamos esclarecer: em 1894, Eugênio Ferreira, filho de rico fazendeiro da terra, formou-se engenheiro no Texas, Estados Unidos, época em que os ricos fazendeiros vendiam todo o gado, empregando os seus milhões de dólares em poços de petróleo, que afloravam na terra. Os poços se multiplicavam assustadoramente, porque a motorização vinha a galope, substituindo as máquinas a vapor, sendo início do milagre econômico da terra do tio Sam.

Eugênio Ferreira não teve dúvidas! Na fazenda de seu pai, abriria os poços e ganharia milhões de contos de réis. Comprou, então, brocas e todo o material para prospecção do petróleo e embarcou para o Brasil, com o canudo de Dr. Engenheiro, e com aquele grande sonho, aquela ilusão sem medidas, de iniciar em Bofete o milagre tupiniquim.

Depois de um ano, quatrocentos metros foram perfurados e nesse ponto a broca se quebrou. Ele não desanimou e, com um intérprete conterrâneo, de origem alemã chamado Teófilo Prat (dois de seus bisnetos fizeram carreira em nossa PM, devendo ser Oficiais da nossa Reserva), Eugênio Ferreira rumou para a Alemanha, comprando novamente todos os equipamentos de perfuração, continuando os trabalhos, em busca daquele sonho, mas a broca ao atingir 800 metros, também se quebrou, quebrando toda a fortuna do seu pai. Não jorrou petróleo, apenas água sulfurosa, cheiro forte de enxofre, que dizem ser ótimo remédio para problemas de fígado e estômago. Mas tudo o que aconteceu não tira a glória de ser Bofete, onde foi aberto o primeiro poço de petróleo da América do Sul, como escreveu o grande escritor Monteiro Lobato.



Como escrevi acima, nessa terra encantadora existe um gigante que dorme. Nos contrafortes na Serra de Botucatu, três morros se destacam, formando, no conjunto topográfico, uma figura enorme, com cabeça, tronco e membros; o perfil de seu rosto, pescoço, sua barriga, pernas e pés configuram uma enorme figura humana, conhecida Bofete como a terra do gigante que dorme. Como a natureza é caprichosa!

Acontece que na minha infância, esse gigante me amedrontava. Era a voz do povo, e eu acreditava, que em todas as madrugadas ele vinha beber água e roubar galinhas nos quintais para seu banquete, naquelas quebradas da serra. A infância sempre povoada de anjos e fadas, mas também de bruxas e bruxos.

Cresci, conheci o mundo, deslumbrei-me, mas nunca esqueci do gigante que, ao longo do tempo tornou-se meu amigo. Cantei loas àquela figura, reverenciando um bandeirante em descanso, dialoguei com os Deuses agradeci a Eles tamanha beleza, dádivas dos céus à minha encantadora Bofete, onde nasci e onde quero para minha morada.

Desculpem-me todo o exagero, neste excesso de amor! Nesta minha querida cidade, no Campo Santo, um conjunto fechado, segurança máxima, silêncio absoluto, principalmente à noite; existe uma Capela e, numa de suas paredes, na parte externa, reproduzi aqueles versos de Tobias Barreto. Na outra parede, vis-à-vis com o Gigante, escrevi minha mensagem, início de uma prosa para toda a Eternidade:


"Meu Gigante, meu grande amigo, conta-me as tuas andanças pelas galáxias do Céu e eu te contarei as minhas venturas e desventuras neste mundo de Deus".


Ia me esquecendo que, encimando a Capela, o nosso padroeiro Santo Expedito, como Sentinela do Altíssimo.